Família > Lifestyle > Leituras

Isabel Stilwell: “Ser avó é o reconhecimento de um sentimento”

avó e neto

Isabel Stilwell conta-nos como foi ser avó e os maior desafios que esta nova tarefa lhe trouxe e deixa alguns conselhos para os recém-avós.

A propósito do Dia dos Avós, a Pumpkin falou com a autora do livro “O Frasco de Memórias”, Isabel Stilwell, sobre o papel de avó – as principais dificuldades, alegrias e a sabedoria que este trouxe consigo.

Avó pela primeiríssima vez

avós e netos

“Quando a Ana me disse que estava à espera de bebé, não tive a reação que imaginava, porque acho que todas nós que somos mães, se pudéssemos tirávamos os obstáculos da vida dos nossos filhos e eu, como enjoei imenso em todas as gravidezes e passei mesmo mal, só queria puder tirar-lhe todas as dores e pôr-lhe logo o bebé no colo.”

Foi, nesse sentido, que Isabel diz ter sentido um misto de emoções. Declara que queria muito ser avó, mas com as crianças já cá fora. Viu, com alguma dificuldade, a filha passar por uma gravidez difícil, com muitos enjoos e com a impossibilidade de fazer esforços a partir do quinto mês de gestação.

“Foi uma gravidez complicada, mas quando, de repente, olhei para aquelas bebés na maternidade desatei a chorar.
Foi mesmo dos 0 aos 100. E eu acho que isso é que é ser avó – é o reconhecimento de um sentimento. A nossa vinculação é muito mais rápida do que até a da própria mãe, o que pode parecer estranho, mas se formos a ver bem a mãe passou por um parto que, se calhar não foi fácil, está com pontos, com o leite a subir, com milhares de coisas e nós [avós], como não temos esse lado, e já fomos mães, sentimo-nos no poder de dizer ‘vá, agora deem cá que a gente leva-os para casa’.”

avós e netos

Contudo, esta felicidade desenfreada é sol de pouca dura, garante Isabel. Passado uns dias, as avós são confrontadas com outro sentimento (não menos poderoso que os outros), o choque.

“Apercebemo-nos que só vamos ser a retaguarda e que não vamos ser mães, que não vamos educar como nós achamos ou como queremos. Isto é uma aprendizagem, ao contrário do que as pessoas pensam. Como é um papel diferente do que já experienciámos, temos que aprender como fazê-lo.”

Apropriação dos avós

avós e netos

“Quando as gémeas nasceram, a Ana tinha 23 anos e eram duas bebés prematuras, o que é o jackpot de uma avó, porque há sempre um que precisa de colo. Mas na segunda gravidez, a Ana teve uma relação completamente diferente com a Martinha.”

Nessa altura, explica que tiveram alguma guerra entre si. A pouco  autora acredita que a sua filha sentiu a necessidade de se emancipar um pouco da mãe [Isabel], na medida em que da primeira gravidez precisou da sua ajuda, deixando que Isabel participasse nas decisões.

“Mas atenção que eu acho que a minha filha fez um trabalho magnífico, porque a Martinha é, de facto, uma criança destemida, confiante e espetacular. Mas foi uma aprendizagem para mim e para a Ana e, desta ultima vez, senti que a Ana estava como que a dizer-me ‘não, desta vez eu vou fazer sozinha e vou fazer como eu quero e como acho que deve ser feito’.”

Principais diferenças entre ser-se mãe e ser-se avó

avós e netos

A jornalista que escreve semanalmente para o Jornal de Notícias e para a revista Máxima diz que:

“Ser avó é ser retaguarda. É ir quando se é chamada. É estar disponível. Não é mão de obra barata, ao contrário do que muitas pessoas acham. É apoio aos nossos filhos e aos nossos netos e procurar o melhor dentro desta equação.”

Ainda assim, esclarece que se os avós sentem que a criança está a ser educada com muitas regras e os avós sentem que ela precisa de experiências contrárias ou que, pelo outro lado, precisa de regras, se calhar pode ter algumas na casa dos avós.

“Portanto, ser avó acho que também tem muito de contraditório. Não do contra.”

As regras de casa dos avós são as regras aplicadas naquele espaço. Isabel explica que as crianças sabem que não é por poderem fazer certas coisas em casa dos avós, que também as podem fazer em casa dos pais, porque “eles sabem perfeitamente onde é que estão”.

“Se os pais confiam nos avós para lhes deixar os filhos, não podem deixar uma lista no frigorífico sobre o que é que os avós podem e não podem fazer. Uma coisa é deixar indicações da toma do antibiótico ou os hábitos para a criança adormecer, como outras rotinas. Outra coisa é dizer ‘olha mas ele não come isto, não faz aquilo, não anda descalço’ e por aí fora. Nesse caso, não deixem em casa dos avós, porque não estão a confiar neles. Na casa dos avós, as crianças comem o que os avós comem, fazem o que os avós dizem, etc.”

neta

Portanto, ser-se avó é ser-se mãe mas de uma forma mais descomplicada?

“Não necessariamente, porque pode ser ao contrário. Acho que basicamente, com a sabedoria da idade, é perceber o que é essencial e o que é acessório. Ser capaz de perceber o que é que com os nossos filhos não valeu a pena. Se querem dormir na cama deles, dormem, se querem dormir na cama dos avós, dormem na cama dos avós.”

Além disso, a escritora refere ainda ainda que as pessoas continuam a julgar demasiado os pais.

“Não há nenhum filho que, se nós [os pais] falarmos às pessoas e formos bem-educados, não vão fazer a mesma coisa. Vão fazer tal e qual. Não vale a pena forçar birras e guerras. Depois também percebemos que há temperamentos/feitios/personalidades e eles não são tábuas rasas e, portanto, vamos ter de saber lidar com deles e [arranjar uma solução para resolver tudo a bem] e vai ficar tudo bem.”

Conta que no dia em que o Eduardo de Sá lhe perguntou se a Isabel achava que as pessoas que sentem que falharam enquanto pais, poderiam ser bons avós, não teve qualquer problema em afirmar que não, porque se não sentir que se fez um bom trabalho com os filhos, os pais vão criar muitas defesas e ter dificuldade em entregar-se de novo a uma criança.

Palavra-chave para bons momentos: RIR

avós e netos
Foto: Jorge Simões

Isabel esclarece que o facto de nos rirmos de nós próprios, como a própria já afirmou fazê-lo, é muito bom, mas sublinha que as crianças não sabem o que é isso de nos rirmos de nós próprios e têm muita dificuldade em compreender o conceito. Muitas vezes diz contar uma história que achou graça a uma amiga e que as crianças acharam que se estavam a rir de si (da criança) e não da graça.

Por esse motivo, Isabel Stilwell diz que temos de ter muito cuidado nessas situações para não ferirmos as suscetibilidades dos nossos meninos.

“Mesmo enquanto povo português, acho que temos que aprender a não nos levarmos demasiado a sério. Não se achar imprescindível, não se achar a pessoa mais importante do mundo e não se levar muito a sério permite-nos essa liberdade de estar sempre ‘a ver com duas fitas’, uma fita que está a entregar e uma fita que está a olhar para.
Acho que isso é uma qualidade. Nem sempre é fácil, mas ajuda muito a olharmos para nós próprios com alguma compaixão quando erramos e também conseguimos entregarmo-nos de uma forma diferente a outras relações – entre pais, filhos, netos, amigos, etc.”

Manter a chama da magia acesa

avós e netos

“Não podemos confundir magia com patetice, nem a proteção excessiva. Isto é uma maneira de encarar a vida. É acreditar que, de facto, a vida é mágica! Não é algo que se entregue às crianças até aos 10 anos e que depois dos 10 ou 15 já não haja.

Eu e as minhas irmãs temos isso muito intrínseco. Eu paro para olhar para uma planta, sou capaz de ir a passear sozinha e se vir um dente-de-leão vou lá e sopro.”

A autora quer com isto dizer que são estes pequenos detalhes do dia-a-dia que refletem a magia da vida, mas que vem já com a pessoa. Ou se tem fascínio pelo tocar, olhar e por ver como a simplicidade tem algo de genuinamente bonito e prazeroso, ou, se não se tem isso incorporado na forma de ser, é algo que não se pode dar.

O difícil é manter a magia acesa. Segundo Isabel, o que se deve fazer para que a criança preserve esse “seu lado” é lutar contra a ansiedade das notas da escola, do que querem serem quando forem grandes e da pressão desnecessária sobre qual a melhor carreira para escolherem no futuro.

“Se olharmos para os nossos filhos como cavalinhos de corrida, na qual só vemos a meta e os preparamos para a mesma, vamos perder o prazer do momento.

Nesse aspeto, os avós têm uma vantagem muito grande em relação aos pais, porque dormiram (algo que geralmente os pais não fazem), e não estão numa fase da carreira, o que não quer dizer que não trabalhem e que não estejam ocupados, mas não estão numa fase de afirmação profissional em que não têm muita margem para alterar a rotina – e é assim que surge a magia.
Não há magia se pusermos os nossos filhos na creche às 8h da manhã e formos buscá-los às 19h e ainda temos coisas para fazer. Isto não é nenhuma crítica, mas é muito difícil, porque uma pessoa está cansada.”

Ser avó mais tarde e com algumas limitações

partilha

Isabel Stilwell deixa um conselho para aqueles que põem a carreira, a estabilidade financeira e o adiar do relógio biológico à frente da decisão de engravidar: não se esqueçam que a vossa idade avança, mas a dos vossos pais também.

Daí, afirmar que às vezes diz para as pessoas: “acordem, que isto de adiar tem consequências sérias”. Às vezes a idade avança tanto que, quando dão por isso, os futuros papás engravidam e aqueles que seriam os avós já não estão cá para acompanhar a aventura no mundo da maternidade e paternidade.

“Essa é a forma mais horrível de ser pai, não no sentido da ajuda, mas no sentido da partilha da felicidade, porque claro que se calhar aos 40 existe uma maior estabilidade financeira do que quando temos 20 ou 30.”

Segundo a autora, não há nada como ter os avós por perto, porque confere aos pais o conforto de saberem que se lhes acontecer alguma coisa, existe um grupo de pessoas que vão cuidar do seu bem mais precioso, o seu filho.

avós e netos

Quanto mais tarde as pessoas têm os seus filhos, mais tarde as pessoas são avós e isso traz limitações à sua interação com os netos.

“Em relação às atividades, os avós não se devem forçar a fazer coisas das quais não gostem. Claro que todos nos esforçamos. Mesmo que não me apeteça ir ao carrossel vamos porque eles querem. Mas há ainda aquela ideia de que temos que fazer coisas fora de casa extraordinárias e é um absurdo, porque acho que muitas vezes o que as crianças mais precisam é de ficar em casa, porque já vão para mil projetos com os pais, com a escola, etc.”

Estar em casa não é sinónimo de não fazer nada e prova-nos Isabel Stilwell com este livro. “Aquela coisa de estar em casa e ir ler, ou cozinhar e comer ou jardinar pode ser uma enorme surpresa para os avós”, que, de repente, dão por si a pensar “Afinal, fazer marmelada é uma coisa espetacular”.

Contudo, também ficar no sofá a ver um programa de televisão num momento em que os avós tenham disposição para se rirem e aproveitar o momento é uma opção.

“O essencial é que não se esforcem demais. Mas, se estamos a falar de crianças pequeninas, a gatinharem ou que estão na fase em que caem muito, é claro que um avô ao fim de um dia de trabalho e com 60 ou 65 anos pode já não ter tanta facilidade em ficar com eles, porque exige uma maior capacidade de organização e de simplificação das coisas, mas também sabemos que é x noites e que depois os pais vêm-nos buscar.”

Claro que se as pessoas gostarem de visitar museus, podem e devem ir com os seus netos, contrabalança Isabel. No entanto, têm que pensar do ponto de vista da criança, porque pode haver birras e acabar a visita com choradeira e alguma (se não, muita) má disposição.

O fascínio das crianças

crianças

“Do ponto de vista dos avós é maravilharem-se com as coisas. E nós, os avós, através deles, vemos as coisas pela primeira vez e esse é o melhor antirrugas.

Quando as gémeas me perguntaram, quando tinham dois anos, porque é que os pombos tinham cachecóis, dei por mim a olhar para um pombo, quando já não o fazia há muito tempo. E é essa capacidade de ver o mundo de novo que é absolutamente fascinante.”

“Frasco das Memórias”

Frasco das Memórias

Neste último livro, Isabel Stilwell partilhou várias atividades para os avós fazerem com os netos, o que, segundo a própria, foi tudo testado “em netos de carne e osso” e que voltaram sempre intactos, sublinha.

“Nasceu de coisas que fui fazendo com elas que nos divertiram. A ideia não é ser uma ficha. Não é ensiná-las a tricotar só porque é muito bom tricotar, mas sim porque é divertido. Ver quantas patas têm os insetos…”

Este são apenas alguns dos muitos exemplos que mostram aos avós que há muitas opções sem ter que gastar muito dinheiro (ou nenhum, até), sem terem que sair de casa, cujas atividades podem ser feitas ‘indoors’ ou perto da habitação, não havendo a necessidade de cansarem em demasia e poder aproveitar e explorar, ao máximo, os recursos e as coisas a que têm acesso.

Mas, para isso “tem que fazer algum planeamento. Por exemplo, uma coisa que nos divertimos muito a fazer foi uma festa para a Ana e para o Eduardo, para celebrar os 10 anos de casados.

Como é em julho, elas vieram cá para casa e fizemos um plano muito detalhado para organizar um jantar de comemoração com cerca de 50 pessoas. Tivemos que contar os talheres, até aqueles sem garfo e dividimos tarefas: ‘Tu divides os garfos, a mana as facas. Temos que ir com a fita métrica para medir o espaço para fazer as bandeiras, temos que ir ao shopping revelar fotografias. E depois fomos comprar tecidos para a toalha’. Depois, ensinei-lhes como fazer bainhas. Portanto, tem de haver um objetivo verdadeiro. O que eu acho que fez toda a diferença foi o facto de não estarmos a fingir que ia haver uma festa.”

Mas, se os avós querem algo perfeito, mais vale irem comprar à loja e não “chatear” a criança. Isso só lhes trará frustração e vai criar mau ambiente.

As birras e a tomada de partidos

birras
Foto: Christine Szeto

De acordo com a autora, a algo que, nos avós, é uma tarefa muito difícil de lidarverem os netos a fazer birras com os pais.

Partilhou connosco um momento que vivenciou enquanto avó e que lhe trouxe muitos ensinamentos:

“Houve uma vez que me intrometi numa birra, o que é algo estúpido, porque eles connosco não fazem birras! Mas, é importante que os avós saibam que eles não fazem birras connosco, porque o nosso amor não é, nem por sombras, tão importante para eles como o dos pais.”

Existem muitos avós que chegam ao ponto de culpabilizar os filhos, dizendo que a filha é que não sabe cuidar dos netos, baseando-se no simples facto de os netos não fazerem birras consigo. “Não fazem birras consigo, porque o amor dos pais é que é o vital para eles. É por ele que eles vão lutar com os irmãos”, explica Isabel.

Nesse caso, como é que os avós podem não se intrometer na relação entre pais e filhos, não intercedendo a favor de ninguém?

“Saindo pela porta fora. É horrível. Saio de lá completamente zangada, irritada… Mas, uma vez intervim, porque achei que a minha neta estava a passar os limites e a ser mal-educada com os pais e peguei nela e tivemos uma discussão horrível.
A Ana ficou entre a espada e a parede, porque depois teve que se zangar muito mais com ela porque ela tinha sido má criada comigo e acabámos todos a chorar e, passado mais um bocadinho, houve uma delas que disse ‘não te metas’. E é mesmo isso.
Não nos podemos meter”, porque “depois dizemos que eles não podem fazer birras porque a mãe está cansada, depois é a nossa filha que se chateia connosco, porque não tínhamos nada a ver com aquilo. E a criança chateia-se, porque a avó não tem nada a ver com aquilo. Acaba por ser um stress pegado”.

De acordo com a avó veterana de 8 netos, são os pais que devem resolver estes problemas, uma vez que são eles também que os educam. Contudo, a teoria de Isabel é que como a maioria dos avós não quer originar conflitos com os seus filhos adultos, acabam por utilizar os mais pequenos para dar recados, entre outras coisas. Mas, afirma que tal não pode acontecer!

“Temos que ter a coragem de dizer aos nossos filhos ‘Ouve lá… eu acho que ele está a fazer de ti gato sapato e acho que devias impor mais regras’, por exemplo. Temos que ter a coragem de ter uma conversa individual longe das crianças.”

Ainda assim, há situações que fogem à regra. Há avós que veem os pais a fazer algumas coisas ou a falar de uma forma que os faz achar que estão a maltratar, de certa forma, a criança, roubando-lhe a alma. Nesse caso, a autora é defensora dos superiores interesses da criança e aí a intervenção é importante, mas também não se pode esquecer de ter uma conversa séria com os filhos.

No fundo, ser avó é uma tarefa muito complexa e difícil, mas também muito gratificante, no qual a sabedoria e a experiência desempenham um papel muito importante para que tudo corra sobre rodas. E mesmo quando não correr, “não mal que não se remedeie”, como já diz o ditado popular português.

O que interessa é o amor, a dedicação, a partilha e a entrega.

 

Se encontrar alguma incorreção contacte-nos por favor.