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A Pumpkin visitou o IPO com os Doutores Palhaços!

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A alegria espalha-se como uma mancha e é consequência directa do inesperado: os corredores escuros e tristes de um hospital são o lugar que abraça, sem culpa, os sorrisos que os Doutores Palhaços provocam à sua passagem. A Pumpkin acompanhou a visita do Doutor Batota e do Doutor Fusilli ao Internamento Pediátrico do Instituto Português de Oncologia de Lisboa (I.P.O.) e não pode deixar de sublinhar que os nossos leitores tinham razão quando escolheram a Operação Nariz Vermelho como a Melhor Causa para Famílias e Crianças nos Pumpkin Awards de 2016: a magia, essa, acontece mesmo.

“Fecha a porta, Fusilli”. A ordem é dada pelo Doutor Batota pela nona vez, e o som das gargalhadas ainda não se dissipou. Sozinha, há uma menina que enche a Sala Lions, no Pavilhão onde as crianças esperam pelas consultas externas. “Chá póta!”, repete, entusiasmada, entre o riso e a surpresa.

Transformação. É essa a palavra que se cola aos gestos dos Doutores Palhaços. Num ambiente triste, onde os rostos revelam o cansaço e o peso da doença, a verdade é muitas vezes só uma: não há motivos para sorrir. O silêncio ouve-se nas salas de espera, interrompido apenas pela voz impessoal que dita nomes e salas de consulta, e pelos espirros que, em Novembro, são já companhia habitual.

A Operação Nariz Vermelho tem como missão levar alegria à criança hospitalizada, aos seus familiares e profissionais de saúde, mas a verdade é que a imagem do Doutor Palhaço provoca reacções a toda a gente, dos mais novos aos mais velhos, que acenam numa descrença feliz, como quem diz “o que é que estes fazem aqui?”, mas que ainda assim o perguntam com riso na voz.

Adultos, pais, crianças, pessoal médico. Os Doutores Palhaços sabem que deles todos precisam, com todos por isso interagem, e em resposta todos participam. Às vezes com um olhar apenas, mas a reacção é o que conta. Servem, por isso, até como psicólogos e ouvintes: num elevador, que supostamente não subia por “excesso de peso” (seria de alegria?), um senhor nos seus 60 anos começou por apresentar resistência às brincadeiras mas, ao fim de três andares, já lhes contava, com uma voz grave mas tranquila, as lágrimas a dançar com o sorriso, que tinha recebido uma notícia “muito, muito boa”. Estava curado, após três intervenções cirúrgicas.

São 14 os hospitais, espalhados pelas cidades de Lisboa, Cascais, Sintra, Almada, Coimbra, Porto e Braga, nos quais a Operação Nariz Vermelho actua. No I.P.O., os Doutores Palhaços começam a sua ronda na Sala Lions, que funciona como espaço de espera para pais e crianças que visitam o hospital para uma consulta externa.

Quando Fusilli percebe, finalmente, que tem que fechar a porta, ela abre-se outra vez. Chega mais uma menina, o sono ainda a amolecê-la no aconchego do carrinho. A acompanhá-la, o pai e a tia, que rapidamente se assumem como espanhóis. E o que é que acontece quando se juntam 2 Palhaços e 2 espanhóis? Há música infantil a ecoar com percussão e palmas. Até as auxiliares os acompanham nas palavras que não sabem dizer. Outra vez, transformação.

Quando saem da Sala Lions num corrupio, porque o Doutor Batota ameaça com palmadas o Doutor Fusilli, cruzam os corredores até chegarem à Ala de Internamento Pediátrico, onde passam o dia, de quarto em quarto, a brincar com as crianças internadas.

Os Doutores Palhaços respeitam o tempo, a vontade e a disposição de cada criança. Afastam-se se assim lhes é pedido, numa confirmação silenciosa do bem-estar da criança em primeiro lugar. Fazem-na rir, mas também lhe permitem que chore, ao quebrar a normalidade imposta e exigente a que muitas vezes, de forma inconsciente, os adultos expõem as crianças. Numa ânsia infinita de vencer a doença e o medo, dizem-lhes: “não chores”. Repetem: “não dói nada”. Quando o palhaço surge e, sem fugir do respeito, brinca com assuntos sérios, funciona como um gatilho para a criança expulsar o stress de todos os dias. “Às vezes em gargalhadas, às vezes com lágrimas”, diz o Doutor Batota, num sotaque que não esconde a origem alemã.

Divulgado em Novembro deste ano, o estudo “Rir é o Melhor Remédio?”, levado a cabo pelo Núcleo de Investigação da Operação Nariz Vermelho, teve como objectivo avaliar o impacto físico, emocional, psicossocial e organizacional da intervenção dos Doutores Palhaços junto das crianças/adolescentes, familiares, profissionais de saúde e das próprias instituições onde esta intervenção tem lugar. Os resultados não mentem: Dos 332 profissionais dos hospitais visitados pela ONV e inquiridos para este estudo, 84 por cento acha que as crianças parecem suportar melhor a dor, 65 por cento considera que estas se alimentam melhor e 65 por cento que melhoram o sono graças às visitas dos Doutores Palhaços. Segundo os profissionais hospitalares inquiridos, 75% das crianças melhoram a sua condição clínica[M1] . Já 99% dos pais consideram que os Doutores Palhaços são uma parte importante da equipa de cuidados das crianças hospitalizadas e 99% refere que gostariam que visitassem as crianças com mais frequência.

Quando os observamos, entendemos porquê. Os Doutores Palhaços permitem à criança brincar e transformar a doença num momento mais positivo. As crianças conseguem sair por instantes daquele hospital e ser apenas crianças. Existe uma normalização da vida dentro de um hospital, já que crianças e pais podem sorrir e brincar sem culpa. É por isso que os Doutores Palhaços tentam sempre fazer chegar a sua mensagem, mesmo que não possam seguir o caminho habitual: quando uma criança responde com indiferença, o foco da atenção das brincadeiras passa a estar nos pais. Sempre com a ideia do bem-estar da criança em primeiro lugar, relaxar uma mãe triste ou um pai nervoso pode ser a chave para que, posteriormente, a interacção entre pais e filhos seja mais tranquila – o que ajudará, obviamente, a criança a sentir-se melhor.

“Mamã! Mamã! Mamã! Olha palhaços!”. Minutos antes, este menino, deitado na cama, olhava para o vazio, enquanto a mãe falava ao telemóvel. A televisão, ligada num canal de desenhos abandonados, estava abandonada de olhares, e os brinquedos, na mesa em frente da cama, serviam apenas para lembrar que, naquele espaço, existiam crianças. Quando os Doutores Palhaços entraram, aconteceu: a transformação, outra vez. Imediata no semblante, rápida também na atitude. A mãe largou o telefone e sorria. O menino pulava na cama. Naquele momento, nenhum tubo o impediu de ter três anos. E a normalidade foi estabelecida: de repente, aquela criança era só isso. Uma criança.

O trabalho dos Doutores Palhaços é personalizado. Existe da parte do hospital uma transmissão, é mesmo esse o nome do procedimento, onde a equipa de enfermagem de cada unidade hospitalar transmite os dados específicos de cada criança, sem os quais os Doutores Palhaços não entram num internamento pediátrico. É assim uma conexão pessoal que se cria, já que os Doutores Palhaços destinam momentos exclusivos a cada doente.

O Doutor Palhaço é um profissional e não um voluntário. Dedica no mínimo 16 horas semanais às visitas, e recebe formação artística e em meio hospitalar com regularidade, bem como acompanhamento psicológico, de forma a melhor poder lidar com as imagens difíceis com que se cruza no seu trabalho – e, eventualmente, com perdas que sofra. O Doutor Palhaço faz por isso parte da equipa que acompanha a criança, mas não é um palhaço normal, porque se adapta ao contexto em que actua, nem um terapeuta – receita sorrisos.

A equipa da Operação Nariz Vermelho é composta por 22 Doutores Palhaços, portugueses e estrangeiros, numa multiculturalidade que prova que a linguagem do palhaço, mesmo em contexto hospitalar, é universal.

O palhaço num hospital, por ser uma verdade tão inesperada, transporta os pacientes para o momento. Apesar da doença, para lá das complicações, independente do futuro, é o presente em que vivem que funciona como efeito terapêutico. A transformação do ambiente, dos rostos e da verdade promove o significado de esperança, porque nos cruzamos com um sorriso num lugar ao qual ele não pertence.

E não é que (sor)rir é mesmo o melhor remédio?

Para ajudar a Operação Nariz Vermelho e possibilitar assim que os Doutores Palhaços possam continuar a espalhar a sua magia pelos hospitais deste país, faça um donativo pontual por Multibanco ou, se preferir, através do NIB 0036 0310 9910 0011 4395 6. Pode também ligar para o número 760 305 505 (a chamada tem um custo de 0,60€ + IVA). A Operação Nariz Vermelho tem ainda uma loja online, onde pode adquirir algum merchandising, cujo valor total da venda reverte para ajudar a manter possível a missão dos Doutores Palhaços. As empresas podem ainda ajudar fazendo eventos de angariação de fundos na empresa. Se pretende adoptar um Hospital, um Doutor Palhaço ou ajudar a causa de outra forma, pode encontrar todas as informações no site oficial da Operação Nariz Vermelho.

(As fotografias deste artigo foram gentilmente cedidas pela Operação Nariz Vermelho.)

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