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Como ensinar o “perigo” às crianças?

ensinar o perigo

Foto: Noah Sillima (Unsplash)

O perigo espreita à esquina, mas muitas vezes também em casas que conhecemos e tomamos por seguras.

As crianças sabem que não devem falar com estranhos, mas daí a fazê-lo vai uma longa distância. Quantas vezes ouvimos dizer que as crianças são puras e esponjinhas que absorvem tudo sem dificuldade? É verdade e por isso é que, mesmo que uma pessoa estranha se aproxime delas com um discurso familiar e apelando a estas suas características, elas acabam por ceder nesta velha premissa do “Não fales com estranhos”. É precisamente por esse motivo que em vez de lhes dizermos que não podem falar com estranho, devemos explicar-lhes a razão que nos leva a fazer tal afirmação.

O conceito de “perigo” é muito vasto e abrangente. No entanto, é importante que tenham em mente que nem todos os perigos vêm dos “estranhos”, ou seja, daqueles que não fazem parte do círculo familiar. Muitas vezes, verifica-se até exatamente o oposto. Se formos a analisar os factos, a maioria dos casos de abusos sexuais que são registados não têm a mão de pessoas estranhas e, perante uma ameaça de sequestro, a maioria das crianças foge. Portanto, o perigo nem sempre vem do estranho.

Como ensinar o “perigo”?

Consequentemente, é necessário que os pais tenham uma abordagem mais abrangente e que ultrapasse o tal “perigo estranho”. É importantíssimo que as crianças aprendam a reconhecer comportamentos suspeitos, independentemente do contexto – se são de um ambiente próximo ou não. Dessa forma, as crianças vão aprender indentificar quando estão em perigo, o que os levará a tomar decisões inteligentes que os façam proteger-se.

“A coisa mais importante que os pais precisam de saber é que 93% dos abusos sexuais contra crianças são perpetrados por pessoas conhecidas da criança, ou seja, familiares, amigos e pessoas que conhecem em seu ambiente, como professores e treinadores. Estamos a centrarmo-nos nas pessoas erradas quando ensinamos os nossos filhos sobre o perigo de um estranho. É melhor que ensinemos os nossos filhos sobre o consentimento e explicar-lhes que ninguém deveria tocá-los sem a permissão deles”, explica Elizabeth Jeglic, professora de psicologia no Centro de Pós-Graduação da Universidade da Cidade de Nova York e autor de ‘Protecting Your Child from Sexual Abuse’.

Conselhos para ensinar o perigo dos estranhos

Ainda assim, é claro que as crianças devem ser cautelosas com os estranhos. Para isso, aqui ficam alguns conselhos de práticas a ensinar ao seu filho:

  • Nunca se deve entrar num carro de um estranho

Os adultos não ganham nada em aproximar-se junto de uma criança num carro para pedir ajudar para encontrar um cão perdido ou dizer que é amigo do pai/mãe e que este lhe pediu para o vir buscar. Faça questão de deixar bem claro que se alguma vez este último ponto acontecesse, o seu filho seria o primeiro a saber, sabendo de antemão que poderia confiar.

  • Estes estranhos que fazem mal podem parecer pessoas normais

A ameaça está à espreita à esquina da rua. Podem, portanto, vir de qualquer lugar e de quem menos esperamos. Um terço dos abusos sexuais a crianças é cometido por menores, sendo 10% desses criminosos do sexo feminino. É, por esse motivo, que o consentimento é o conceito que é mais importante a criança compreender desde muito cedo. Repita as vezes que forem necessários que o seu filho é que tem o controlo e a responsabilidade do seu corpo. Ninguém o deve tocar sem a sua permissão. Este é um dos ensinamentos-chave no que toca aos perigos do dia-a-dia.

A melhor forma é ensinar as crianças a confiar nos seus instintos para lidar com situações que os incomodem. Explicar-lhe como reagiria se estivesse está na casa de um amigo e alguém o tentasse tocar ou mostrar material inadequado. Depois, ponha essa mesma situação em cima da mesa quando estiver a falar com o seu filho”, sugere a autora e especialista em psicologia.

  • Não são apenas os estranhos que são perigosos

93 por cento dos casos de abusos sexuais na infância são cometidos por um adulto que a criança conhece. É, por esse mesmo motivo que é tão importante que as crianças estejam tão atentas aos comportamentos de pessoas estranhas como de pessoas que sejam relativamente próximas.

  • O consentimento é fundamental

As crianças têm de entender que controlam quem pode ou não tocar nos seus corpos e que elas podem sair quando a situação lhes parece errada. Como já referimos anteriormente, é de extrema importância que a criança compreenda que ela é que tem o controlo do seu corpo e que ninguém deve fazer nada contra a sua vontade e sem a sua permissão. Ensine-lhes a regra “Aqui ninguém toca”.

  • Falem sobre isso

As crianças têm de praticar o simples ato de dizer “Não!” e devem dizer imediatamente a um adulto se alguém o toca ou tenta fazê-lo de forma inapropriada.

  • Apoie-os

Quando uma criança decide que não quer ser tocada, independentemente de ser numa briga ou quando se encontram com um familiar, os pais devem respeitar e não forçar a fazer algo que não quer.

Considerações Finais:

O facto de montar um cenário para que eles tenham a oportunidade de o interpretar e entender permite dar-lhes instrumentos para que possam praticar a forma de se protegerem.

É claro que para uma criança, desafiar um adulto pode ser aterrador, mas é a única resposta para qualquer pessoa que tente forçar a criança a uma qualquer situação que seja errada, independentemente de ser um estranho na rua ou o irmão mais velho de um amigo. Mal se livre do perigo, a criança deve saber que tem que ir em direção a um adulto de confiança e contar tudo o que aconteceu, seja ele o pai, a mãe, um professor, polícia ou vizinho.

Os pais têm de se certificar que estão a apoiar os seus filhos quando estes não querem beijar ou abraçar um parente ou amigo muito próximo da família, porque desta forma está a mostrar-lhes que eles (os miúdos) têm controlo sobre o seu corpo. O simples ato de repreender uma criança por não beijar um parente distante pode enviar mensagens confusas ao seu cérebro, podendo até fazê-la sentir-se envergonhada por não querer ser tocada ou beijada, o que pode originar problemas no futuro, pois a criança acha que o está a sentir ou fazer é errado e pode começar a agir de forma contrária e perante situações de perigo real.

“Vocês [pais] querem que eles não sintam vergonha se algo lhes acontecer, que vocês estarão lá para os ajudar e apoiar, independentemente do que aconteça”, aconselha Elizabeth Jeglic.

“Ensiná-los a confiar nos seus instintos e apoiá-los [o facto de não permitir que outros adultos os abracem ou os toquem contra a sua vontade], ajudá-los-á a lidar melhor com as situações, sendo certo que vão confiar e contar aos pais se essas situações ocorrerem.”

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