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Tenho umas orelhas grandes, para te ouvir melhor!

conversar filhos

As crianças precisam de ser ouvidas.

Ou melhor, as crianças não precisam de ser simplesmente ouvidas, mas que escutemos com atenção o que têm a dizer. Quem o diz é Inês Custódio, Psicóloga Clínica na Oficina de Psicologia.

Falo deste tema, porque a um ritmo acelerado, muitas vezes subvalorizamos as conversas que temos as crianças. Não damos tanta atenção a estes momentos porque afinal de contas elas “nem sabem ter conversa de gente adulta” e divagam sobre temas “pouco interessantes” para nós. Estes pensamentos até pode ser verdade, porém o que importa não é o tema da conversa, mas o ato de conversarmos com elas.

Então porque havemos nós de entrar nas divagações sobre o que a Gata borralheira fez depois do baile? Ou porque é que devemos escutar a descrição pormenorizada de como o João aprendeu a fazer uma finta?

A verdade é que conversar é tão natural e necessário para nós humanos, que se tornou uma das mais importantes formas de nos relacionarmos e criarmos vínculos emocionais. Se o contacto físico é o princípio do vínculo entre pais e filhos, a comunicação dá continuidade a esse vínculo e é um preditor da relação que vamos ter com os filhos.

Assim, ao ouvirmos atentamente a crianças, estamos a dizer-lhes “Tu és importante” e a mostrar-lhes que as valorizamos e que as levamos a sério, por isso estamos disponíveis para elas. Nestes diálogos, estamos também a ajudá-las a resolver problemas e a esclarecer dúvidas, estamos a ajudá-las a falar e a lidar com emoções e a ensiná-las a escutar os outros (incluindo a nós).

Porém, apesar das nossas melhores intenções, por vezes não é fácil ter esta disponibilidade e conseguir escutar o que as crianças à nossa volta têm para dizer.

Por isso mesmo, deixo algumas palavras que podem ajudar:

Esforço: No início pode ter de fazer um esforço para ter tempo, para estar, para acompanhar a conversa, mas valerá a pena.

Atenção: Por vezes, apesar da intenção de darmos um tempo à criança, a nossa mente começa a divagar por outros assuntos que consideramos “mais importantes” e sem darmos conta, já nos perdemos e já não estamos a escutar… Para estar mais presente, procure tirar alguns momentos para refletir sobre as suas próprias questões sozinho(a), para encerrar um dia de trabalho, para organizar as tarefas a fazer… resulta bem antes de ir buscar as crianças à escola ou antes de as deitar, por exemplo. Desta forma, estará mais disponível e atento enquanto conversam.

Curiosidade: Curiosidade pelas vivências da criança. Questione, procure perceber e deixe de lado as suas “certezas” ou a ideia de que o adulto sabe tudo. É importante sermos humildes para ouvirmos realmente e para compreendermos, principalmente quando a criança tem algo mais sério a dizer (e sim, a discussão com a melhor amiga, pode ser um tema sério e importante para qualquer menina).

Alinhe: Entre no tema da conversa, não tem de inventar nada, pois mesmo quando não souber muito sobre o tema, pode sempre pedir que ela lhe explique. E se forem fantasias ou “tolices”, procure aquela parte de criança dentro de si e entre na conversa. Por vezes é só uma conversa divertida.

Iniciativa: Não deixe que seja sempre a criança a procurá-lo(a) para conversar ou para perguntar algo. Aproveite momentos em que ela está a brincar ou a ver um desenho animado, para se sentar perto dela e perceber o que ela está a fazer.

Respeite: Com a iniciativa vem também o respeito pelos momentos em que a criança não quer falar. É importante dar-lhe tempo, espaço e aceitar que nem sempre terão de falar sobre tudo (afinal de contas o nosso espaço pessoal é muito importante). Respeite também quando a criança lhe contar algo que não quer que partilhe com mais ninguém, afinal de contas ela está a confiar em si.

Cumpra: Se, por outro lado, a criança pede para falar consigo num momento em que está noutra tarefas (e as crianças adoram chamar repetidamente por nós quando estamos a falar com outra pessoa), diga-lhe que a ouvirá em seguida e cumpra isso.

Sinceridade: Seja sincero nas suas opiniões, nos seus cometários e até sobre os momentos em que não estava a ouvir, em que se distraiu ou em não compreendeu algo. As crianças são pequenas, mas percebem perfeitamente quando não estamos a ser verdadeiros.

Boas conversas!

Se encontrar alguma incorreção contacte-nos por favor.