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Não há mães a part-time

mães a part time

Foto de Annie Spratt no Unsplash

Se há "mães a tempo inteiro", quer dizer que há "mães a tempo parcial"? Como?

Não somos todas mães a tempo inteiro? É esta a reflexão que nos propõe a Susana do blog A Espuma dos Dias


Há uns grupos chamados “Mães a Tempo Inteiro” (ou o equivalente) espalhados pelo Facebook que servem de espaço de partilha para mães que não têm um emprego remunerado. O que cada um faz com o seu tempo e dinheiro é consigo, principalmente as mulheres, a quem tantas escolhas foram sendo negadas ao longo da História. No entanto, temos de esclarecer aqui uma coisa. Mãe a Tempo Inteiro é uma redundância. 

Eu tenho um emprego remunerado, que me põe num escritório 8 horas por dia. Sou mãe a tempo parcial? Sou mãe apenas 1/2 do dia? Porque se há “mães a tempo inteiro”, a implicação lógica é que há mães a tempo parcial, certo? E essas mães serão as que trabalham fora de casa, portanto.

Trabalhar em casa é uma coisa, seja em trabalho doméstico ou numa actividade remunerada. Trabalhar fora de casa é outra coisa, seja esse trabalho remunerado ou não.  Todo o trabalho tem valor, independentemente de ter um ordenado ou não. Mas o que o nosso trabalho, remunerado ou não, é ou deixa de ser não define a maternidade, nem em termos de tempo e muito menos de qualidade. Eu sou mãe a tempo inteiro porque não há um segundo num dia inteiro em que eu não o seja. Não é por não estar fisicamente com o meu filho o tempo todo (e a sério, ele tem quase 3 anos, ele precisa de outras pessoas), que deixo de ser mãe nessas horas, de me preocupar com ele, de fazer listas mentais da roupa que ele precisa para o Inverno, de enviar uma mensagem ao meu  marido a contar aquela coisa engraçada que ele disse a caminho da escola, de questionar onde andam os calções da natação e todas as outras coisas que as mães fazem (e os pais, mas este post tem um público-alvo específico).

Compreendo a necessidade de valorizar a opção (ou necessidade) das mulheres de não ter um emprego. Esta situação passou de normal a coisa rara e quem a toma deve com certeza precisar de validação e nomenclatura para se definir num contexto social moderno onde está em minoria. Mas essa validação não pode definir-se como Mãe a Tempo Inteiro, como se foste o oposto das mães com emprego remunerado fora de casa, porque a implicação é que estas últimas estão a dar menos aos filhos.

E o termo é terrivelmente ambíguo. Se a tal “mãe a tempo inteiro” tiver um emprego a partir de casa duas ou três horas por dia, continua a aplicar-se? E se a criança for para a creche, pelo menos uma parte do dia?

Eu acho genuinamente que as maioria das crianças, após a fase “bebé de colo”, estão no seu habitat “natural” em grupo com outras crianças, de preferência com idades diferentes e não em casa com um adulto exclusivamente dedicado a elas, mas isso é assunto para um outro post. A minha escolha não se prendeu só a esta crença, mas também à necessidade que temos de ter dois ordenados. Mas mesmo que eu ganhasse o Euromilhões amanhã e pudesse, financeiramente,  não ter um emprego, o Simão ia continuar a frequentar a creche e eu ia continuar a ser mãe dele 24 horas por dia, sem descanso aos Domingos.

Não sei qual será o melhor termo para definir estas mães, ou sequer se é mesmo preciso um termo;  mas “Mãe a Tempo Inteiro” somos todas. 

Se encontrar alguma incorreção contacte-nos por favor.

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