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O monstro do “não sou capaz”!

O monstro “não sou capaz”

O seu filho costuma ter medo de experimentar algo novo? A Oficina de Psicologia tem umas dicas preciosas para acabar com o monstro do “não sou capaz”.

Ouve isto com muita frequência aí por casa? O seu filho recusa muitas vezes experimentar fazer algo novo com a frase “não sou capaz” ou “não sei”?

A verdade é que conhecemos crianças muito motivadas para a aventura, para experimentar novos desafios e novas aprendizagens, procuram isto naturalmente ou quando lhe propomos algo saltam logo do lugar a dizer “eu quero, eu quero!”.

Por outro lado existem crianças mais resistentes ao que é novo e desconhecido, oferecem resistência em experimentar algo e quando são “obrigadas”, geralmente, vão contrariadas ou com medo.

Falamos de caraterísticas (traços de personalidade) que a criança pode ter herdado de alguém da família (há alguém aí por casa que também seja pouco adepto das novas experiências?) ou falamos de algo que a criança aprendeu, por exemplo devido a experiências passadas de fracasso (p.e. quando o irmão mais velho é sempre melhor em tudo), devido à ausência de incentivo na família (são uma família que aposta em novas atividades? Procuram aproveitar o tempo livre com coisas novas?) ou quando a criança é muito protegida ( com as melhores intenções acabamos por fazer tudo pela criança limitando o seu crescimento autónomo).

Seja qual for o motivo, será que sabe qual é a história do monstro “não sou capaz”? A história do monstro “não sou capaz” é muito simples e talvez um pouco triste… o “não sou capaz” é um monstro em forma de pensamento que cria muito medo.

Vai dizendo coisas como: “tu não sabes fazer isso”, “vais cair”, “vai correr mal”, “os outros fazem isso melhor que tu”… aos poucos vai crescendo cada vez mais medo e a criança começa a perder oportunidades de perceber se realmente é capaz ou não porque simplesmente recusa experimentar muitas atividades.

Num futuro, não muito longínquo, poderá ter mais dificuldade em se adaptar a novas situações, em sair da proteção dos pais e sentir-se bem com isso, em ser autónoma e “desenrascada”.

Esta não é uma história muito feliz, mas que com pais atentos poderá alterar-se um pouco. Não tenhamos como objetivo destruir o monstro, mas ensinar a criança a não ter tanto medo dele, ganhando mais coragem e confiança. Algumas ajudas em casa podem ser fundamentais, para aumentar esta capacidade de lutar contra o monstro “não sou capaz”:

 

1. Não obrigar a criança a fazer algo que ela não quer fazer! “Oh Inês, mas assim já não estou a entender como é que ele vai experimentar…”. Não se apoquente, não dizemos que a criança não vai tentar, mas que não a vamos obrigar, porque obrigar significa aumentar a aversão aquela situação, a criança ficará mais ansiosa, revoltada e sentirá um maior peso para conseguir. Não é o que nós queremos, pois dessa forma o monstro cresce.

2. Vamos perguntar à criança. E agora pensa: “Já sei que ela vai dizer que não!” e muito provavelmente , sim! Mas vamos perguntar na mesma – “Olha já viste a piscina com água tão fresquinha. Queres vir?” – Se a resposta for não, é não! –  “Ok! Então se por acaso daqui a pouco quiseres ir diz!”.

3. Vamos mostrar como se faz. Muitas coisas provocam medo porque a criança desconhece se estas são seguras ou não, por isso os pais são aqui um ótimo modelo para mostrar como se faz. Vamos só retirar aquela parte em que nos gabamos e começamos a aumentar a pressão para a criança com o típico “vês é fácil, não queres vir? Vá lá! Anda só um bocadinho….”. Vá lá ninguém gosta de gabarolas, nem o seu filho…para além disso estaríamos a aumentar a sensação de incompetência da criança. Mostre só que é seguro.

4. Ajude a criança a relaxar! Fale de outra coisa com ela, não faça um grande problema da situação, deixe a criança ambientar-se ao espaço e ao novo estímulo. Faça com ela outra atividade que ela goste, sem pressão! Repare no monstro a diminuir… pequenino, pequenino, porque fazer outra coisa que a criança gosta e sabe fazer, ajudam a confiança a crescer!

5. Passado um tempo… se a criança ainda não mostrou interesse em experimentar a outra atividade (neste caso ir para a piscina), volte a mostrar interesse em ir nadar um pouco e volte a convidar a criança. Se a resposta continuar a ser negativa, pergunte calmante do que tem medo. Se a criança conseguir identificar (p.e. “porque é fundo”, “não sei nadar”…) ajude a minimizar esse medo falando da sua própria experiencia (já todos tivemos momentos em que sentimos medo) “ok! Eu também tive medo as primeiras vezes que fui para a piscina, o que me ajudou foi mesmo…” e por pequenas aproximações podem por exemplo sentar só na beirinha, molhar os pés… e o monstro a diminuir…

6. Não force muito mais se não houver disponibilidade por parte da criança. É fundamental que ela sinta que está segura e que tem controlo sobre a situação. Se não entrar hoje na piscina entrará noutro dia, o que conta é a habituação ao meio e as aproximações pequeninas.

 

“Então e chegamos ao fim do texto e não entramos na piscina?!”

Pois é, esqueci-me de referir um ingrediente fundamental desta tarefa para os pais, a paciência! Para conseguir diminuir este monstro o seu filho precisa que tenha muita paciência com ele, pequenas conquistas darão grandes frutos, que podemos não ver no comportamento imediato, mas que se refletem internamente na confiança da criança ao perceber que não há problema em ter medo, que os pais não a pressionam para ela dar mais do que ela acredita ser capaz, mas que estão ao seu lado passo a passo, com calma e muito amor!

Entretanto pode ir ajudando algumas mudanças nas rotinas familiares como por exemplo: aproveitarem fins-de-semana para visitar sítios novos, organizarem jantares com amigos e outras crianças, oferecerem à criança a oportunidade de participar nas tarefas de casa, elogiarem muito o seu esforço nas variadas tarefas, reforçarem cada coisa que ela faz bem (num dia temos milhares de oportunidades, porque a criança está a maior parte do tempo a aprender coisas novas), partilharem os interesses da criança, pedirem para ela explicar o jogo que ela sabe jogar tão bem…

E era uma vez o monstro do “não sou capaz” e começou a crescer o bichinho da coragem…

 

Inês Custódio

Equipa Infanto-Juvenil

Oficina de Psicologia