Tom Percival: entrevista sobre livros infantis e emoções - Pumpkin.pt

Entrevista a Tom Percival: “Tentar ignorar um sentimento é como tentar ignorar um furacão”

Entrevista a Tom Percival

A Pumpkin esteve à conversa com Tom Percival, autor e ilustrador de livros infantis, que vai estar na Feira do Livro de Lisboa. O escritor e ilustrador britânico fala-nos sobre livros infantis, emoções difíceis, infância e a importância de dar às crianças palavras para aquilo que sentem.

Há livros que parecem chegar mesmo no momento certo — quando uma criança está a aprender a lidar com uma preocupação, uma deceção, uma zanga maior do que ela própria ou aquela sensação difícil de não se sentir vista. Muitos dos livros de Tom Percival vivem precisamente nesse lugar: entre as grandes emoções da infância e a capacidade das histórias de as tornar mais fáceis de compreender.

Escritor e ilustrador britânico, Tom Percival cresceu numa zona rural de South Shropshire e teve uma infância pouco convencional.

Hoje, Tom Percival vive em Gloucestershire com a mulher e os dois filhos, e continua a escrever e ilustrar livros que ajudam crianças e adultos a falarem sobre emoções com delicadeza, empatia e esperança.

Em Portugal, vários dos seus livros estão publicados pela Editora Jacarandá, do Grupo Editorial Presença, incluindo títulos como O Que Fazer Com Uma Preocupação?, Invisível, Como Se Fazem Amigos?, Perfeitamente Normal, As Pontes, O Rugido que Há em Ti e Um Dia Não. Antes de vos deixarmos algumas sugestões para conhecerem melhor o seu universo, descubram o que Tom Percival nos contou sobre livros, infância, criatividade e emoções:

Cresceu numa caravana numa região remota do sul de Shropshire: sem eletricidade, candeeiros a petróleo, água trazida de uma nascente, gelo a formar-se na cabeceira da cama no inverno. Esta experiência parece profundamente ligada às crianças a quem escreve: crianças que se podem sentir negligenciadas pelo mundo. Como é que uma infância tão particular se transforma numa obra que parece dirigir-se a qualquer criança, em qualquer lugar?

Acho que há SEMPRE mais coisas que nos ligam do que aquelas que nos separam. Onde quer que (e quando!) viva, as necessidades humanas básicas de conforto, companhia, comida, abrigo, aconchego e amor estão SEMPRE presentes. Pode ler um livro escrito por um autor que já morreu há muito tempo sobre uma criança que viveu há mais de 200 anos e ainda lhe parecerá relevante, em muitos aspetos, para a forma como vivemos hoje. É claro que as especificidades da sociedade são diferentes, mas os fundamentos mantêm-se os mesmos.

Portanto, penso que ter uma compreensão do que é crescer numa situação desafiante no Reino Unido é o mesmo que ter uma situação desafiante em qualquer lugar. E a questão sobre o “desafio” é que TODOS nós o sentimos. Independentemente do ponto em que nos encontramos na vida e de quão afortunados ou desafortunados nos sintamos, TODOS nós temos lutas que precisamos de ultrapassar, e o que tento fazer no meu trabalho é comunicar esta ideia de que a vida é desafiante (juntamente com a diversão, o incrível, o surpreendente e o emocionante!).

O meu objetivo é sempre focar-me na universalidade da experiência humana e, sempre que possível, comunicar isso no meu trabalho.

A sua série “Big Bright Feelings“, conhecida em Portugal como “Pequenos com Grandes Emoções“, explora sentimentos como preocupação, raiva, ciúme, timidez, decepção e as pequenas mentiras que crescem. Como escolhe que emoção explorar? E porque é importante colocar cada sentimento dentro de uma criança real, num dia comum, em vez de o tratar como uma ideia abstrata?

Nesta série, costumo analisar sentimentos que as pessoas consideram desafiantes de alguma forma e, em seguida, tento apresentar uma sugestão simples de como as crianças pequenas podem lidar com estas emoções à medida que as vivenciam. Por vezes dizem que ajudo as crianças com “más emoções”, mas não acho que nenhuma emoção seja “má” em si mesma. Acredito que TODAS as nossas emoções fazem parte de um sistema de feedback sensível que nos orienta no dia a dia. Afinal, a raiva é uma emoção útil, pois pode ajudar-nos a identificar situações que consideramos injustas. A chave da raiva é permitir que ela nos indique onde é necessário agir, mas NÃO deixar que ela determine a nossa resposta.

Os livros da série “Big Bright Feelings” são frequentemente estruturados em torno de três simples palavras: “be open, be honest, be you” (que podemos traduzir como “sê aberto, sê honesto, sê tu próprio”). Parecem instruções para uma vida inteira, ditas em três palavras. Esta ideia surgiu antes dos livros ou foram os livros que lhe ensinaram a frase?

Interessante! Introduzi esta frase pela primeira vez na edição americana de “Perfectly Norman”, depois de a edição britânica já ter sido impressa. Inicialmente, a ideia estava diretamente ligada àquele livro, que aborda temas como o amor-próprio e a aceitação pessoal, mas cedo percebemos que, na sua essência, combinava com TODOS os livros e era apenas um conselho simples e agradável.

Nos seus livros, as emoções tornam-se visíveis: a Preocupação de Ruby cresce até preencher toda a página, Ravi liberta o tigre, os sentimentos mudam de cor e de ritmo como a corrente de um rio. Porque é importante dar forma ao que as crianças sentem, em vez de descrever a emoção de dentro para fora?

Isto deve-se a dois motivos. Em primeiro lugar, torna as noções bastante abstratas de emoção claramente visíveis para as crianças pequenas. Conseguem VER que a Preocupação de Ruby parece rabiscada e efervescente, conseguem VER que a Preocupação aumenta quanto mais Ruby tenta ignorá-la. Assim, isto facilita a compreensão da história e também torna os livros mais divertidos. Diverti-me imenso a criar estes livros e a tentar descobrir a melhor maneira de visualizar um determinado conceito.

Alguns adultos ainda evitam falar com crianças pequenas sobre as emoções mais difíceis, como a tristeza, a raiva, o medo ou a vergonha, seja porque não sabem como iniciar a conversa, seja porque querem proteger a criança do peso da mesma. O que diria a estes pais?

Eu diria que NÓS SOMOS os nossos sentimentos. Tudo no mundo é ditado pela forma como nos sentimos naquele momento e tentar ignorar um sentimento é como tentar ignorar um furacão! Pode tentar, mas não vai adiantar de muito!

Uma coisa que talvez alguns pais não compreendam totalmente é a ideia de que as crianças têm uma vida emocional interior tão rica e detalhada como a deles. Aliás, o panorama emocional de uma criança é MAIS vívido do que o dos seus pais, porque tudo é novo para uma criança e, por isso, estas emoções podem parecer quase incontrolavelmente poderosas.

Penso que a melhor forma de ajudar qualquer criança a progredir na sua vida é dar-lhe um vocabulário claro sobre as emoções, nomear e descrever todos os diferentes sentimentos e permitir que as crianças ‘sintam’ essas emoções sem fingimento, ajudando as crianças a utilizar as emoções como um caminho para um futuro mais feliz e saudável.

Assim, se uma criança está com ciúmes, não termine a conversa dizendo “não sintas ciúmes”, abra uma discussão sobre o PORQUÊ de isso acontecer e tente identificar uma forma de resolver esse sentimento.

O livro “Invisível” distancia-se da série “Pequenos com Grandes Emoções” e coloca a sua personagem principal, uma criança com menos recursos do que as outras, dentro de uma história sobre a pobreza infantil sem sentimentalismo, sem uma moral fácil, sem um final feliz. É um livro corajoso para escrever para leitores muito jovens. O que o levou a contar esta história? E o que aprendeu ao vê-la nas mãos das crianças?

Como disse acima, não acho que devamos evitar comunicar mensagens desafiantes às crianças. Os seus referenciais são diferentes dos de um adulto, mas compreenderão a injustiça, o medo, a perda, a solidão e uma infinidade de situações. E penso que devemos às crianças ajudá-las a refletir sobre estes temas e oferecer-lhes um espaço seguro onde possam pensar sobre como se sentem em relação ao mundo que as rodeia.

Já escreveu sobre a preocupação, a raiva, o ciúme, a timidez, a deceção, a pequena mentira que cresce e a coragem para pedir ajuda. Há algum sentimento, ou algum aspeto da infância, que ainda não tenha abordado e que gostaria de explorar num livro futuro?

Na verdade, tenho mais três ou quatro ideias que acho que funcionariam bem como livros da série “Grandes e Brilhantes Sentimentos”, mas vou fazer uma pausa nesta série por enquanto e trabalhar numa nova série durante os próximos dois anos. Também escrevo livros para leitores mais velhos, como “Os Sapatos Errados”, que penso que ainda não foram publicados em Portugal, e estou a gostar muito de escrever ficção mais longa como esta.

Encontrará leitores portugueses na Feira do Livro de Lisboa. O que mais espera destes encontros com crianças e famílias?

Mal posso esperar! Fico sempre muito entusiasmado para viajar para lugares novos e estou ansioso por passar algum tempo em Lisboa.

Muito obrigada, Tom.

O autor irá estar em Lisboa para uma conversa com a cantora e autora Luísa Sobral na Praça Amarela, no dia 7 de junho às 11h00. Depois, fará uma sessão de autógrafos no espaço Grupo Editorial Presença.

Aproveitem e leiam em família estas histórias de Tom Percival

Um Dia Não, de Tom Percival

A Bia está muito entusiasmada com o seu dia de anos, mas quando as coisas não correm como imaginava, o seu mundo parece partir-se aos bocadinhos.

Uma história reconfortante sobre expectativas, frustrações e a aprendizagem, tão importante na infância, de lidar com as deceções.

É uma boa sugestão para crianças que vivem tudo com muita intensidade — e para pais que procuram uma forma doce de falar sobre aqueles dias em que nada corre como previsto.

O Rugido que Há em Ti, de Tom Percival

O Ricardo consegue, quase sempre, controlar o seu mau génio… até ao dia em que solta o tigre que há dentro de si.

Este livro aborda a zanga e a autorregulação emocional de forma inteligente e muito visual, ajudando as crianças a perceber que os sentimentos fortes não são “maus” — precisam é de ser reconhecidos, compreendidos e expressos de forma segura.

As Pontes, de Tom Percival

A Mia sente-se sozinha, como se estivesse presa numa ilha.

Mas quando começa a ler, surgem pontes que a levam a novos mundos, novas descobertas e novas amizades.

Uma celebração bonita do poder dos livros e da leitura, perfeita para famílias que querem incentivar o gosto pelas histórias e mostrar às crianças que os livros também podem aproximar pessoas.

O Que Fazer Com Uma Preocupação?, de Tom Percival

A Lara era feliz, até ao dia em que descobriu uma Preocupação.

Primeiro pequena, depois cada vez maior e mais difícil de ignorar.

Um livro delicado sobre ansiedade, medos e inquietações, que reforça a importância de falar sobre aquilo que nos pesa por dentro — mesmo quando parece pequeno demais ou grande demais para explicar.

O Que Fazer Com Uma Preocupação?, de Tom Percival

Invisível, de Tom Percival

A Isabel nunca teve tantas coisas como as outras crianças, mas tinha o apoio da família.

Quando se muda para uma zona afastada da cidade, começa a sentir-se cada vez mais invisível.

Uma história com muita ternura sobre empatia, desigualdade, pertença e a importância de vermos verdadeiramente quem está à nossa volta.

Como Se Fazem Amigos?, de Tom Percival

Para a Rosa, muitas coisas são fáceis — mas fazer amigos não é uma delas.

Ela não sabe bem o que dizer, quando falar ou como agir, até descobrir que tem um talento especial que a pode ajudar.

Uma história terna sobre amizade, insegurança social e a coragem de tentar criar laços com os outros.

O Mar Viu, de Tom Percival

Jacaranda O Mar Viu Tom Percival

A Sofia tinha um velho ursinho de peluche que era passado de geração em geração. Ela adorava aquele ursinho, faziam tudo juntos… até que um dia foram à beira-mar.

De repente, deu-se uma tempestade, e à pressa, acabou por perder o ursinho na praia. Ninguém o viu, exceto o Mar.

Uma história comovente que nos mostra que nada fica realmente perdido se estiver guardado no coração.

Perfeitamente Normal, de Tom Percival

O Norman sempre fora normal… até ao dia em que lhe cresceram asas.

Apesar de serem fantásticas, ele começa a escondê-las por receio do que os outros possam pensar.

Um livro muito especial sobre diferença, autoaceitação e a coragem de sermos quem somos, mesmo quando isso significa sair do “normal”.

Para celebrar o Dia da Criança em Família:

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