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Importância de um trabalho psicoterapêutico na fase da gravidez e no pós-parto

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Catarina Rodrigues

Psicóloga clínica e psicoterapeuta

O contacto com pais demonstra-nos aquilo que muitos estudos sublinham: que a gravidez e, sobretudo, o nascimento do primeiro filho, consiste numa das maiores transformações que a pessoa realiza no seu ciclo de vida. A passagem de uma relação dual (de casal) para uma relação triádica (pais e filho) traz exigências emocionais e psíquicas de monta. Deixar de se ser só filho para se ser pai actualiza desejos e fantasias, medos e esperanças, guardados no cantinho do sonho da parentalidade que se vai formando desde muito cedo na existência da pessoa (quer nas brincadeiras de criança, quer nos sonhos da adolescência).

A gravidez é um período de importantes transformações na mulher, no homem e no casal e o momento inicial do desenvolvimento psicológico da futura criança, realçando-se a estreita ligação que existe entre o desenvolvimento físico, cognitivo, emocional e psicológico do feto e a relação proporcionada pelos pais, nomeadamente pela mãe.

A gravidez é um momento de profunda transformação psíquica, predispondo os futuros pais à partilha e à vontade de falar sobre a gravidez, o parto e as transformações que ser pai traz… e, claro, sobre o desenvolvimento e as características do seu bebé. Na sua sabedoria de experiência feita, os pais comentam que não conseguem, nem lhes apetece falar de mais nada. Os pensamentos sobre o bebé invadem o seu pensamento, dominando-o por completo.

Muitas vezes, o momento da primeira ecografia funciona como porta de entrada para vida psíquica dos futuros pais. Realizada no primeiro trimestre da gravidez, esta ecografia permite, pela primeira vez, que os pais vejam o seu bebé, ainda feto, e ouçam o seu coração, tornando-se um momento muito emocionante e emotivo. A intensidade e a frequência dos batimentos mostram aos pais a força daquele pequenino ser. São sons que ficam para sempre gravados na memória dos pais. São sons que trazem consciência da existência do seu bebé. Dentro da barriga da mulher, existe um coração que bate, forte e vigoroso, bombeando sangue, agarrando à vida aquele pequeno ser.

Nesta fase, ainda não se sentem os movimentos do bebé, pelo que o som do coração e a imagem ecográfica constituem elementos reais que se vão juntando à representação imaginária do bebé. Neste sentido, muitos são os pais que guardam esta primeira imagem e a expõem seja na sua carteira, numa parede da sua casa, ou no ecrã do seu computador, ou no seu facebook ou em outras redes sociais, anunciando desta forma a alegria da gravidez e o seu envolvimento.

Mais tarde, a sensação dos movimentos do bebé é outro momento especial e transformador durante a gravidez, essencial no processo de tornar o bebé sujeito na mente dos pais. Não é raro que os pais atribuam significado a estes movimentos e neles adivinhem aspectos da personalidade do seu bebé. Podem dizer que é irrequieto, muito vivo, quieto e sossegado, teimoso, bem-disposto, logo encontrando identificações com cada um dos pais e com as respectivas famílias, logo extrapolando para as possibilidades de profissões.

Tomando “forma” na mente dos pais, o bebé nasce psicologicamente. Com efeito, «o nascimento psicológico do bebé faz-se no útero mental da mãe (e do pai)» (Coimbra de Matos, 2007, p. 46), numa «triangulação original» (Coimbra de Matos, 2007, p. 53). Os pensamentos sobre o bebé fazem-no constante na mente e no sonho dos pais, concedendo-lhe o primeiro berço que embala. É esta constância de ser sujeito na mente dos pais que permite ao bebé sentir-se com, ou seja, estar, desde logo, em relação com alguém que pensa e fala com ele e sobre ele.

São, por isso, momentos sensíveis, a partir dos quais se pode desenvolver um trabalho terapêutico, por exemplo, através de consultas pré-natais, concorrendo para a consolidação dos processos de parentalidade.

De facto, quando a dança sincrónica na interacção mais precoce não acontece, a presença do psicoterapeuta introduz o terceiro elemento que permite pensar a relação diádica ou triádica e cada elemento em separado, iluminando razões, afectos, procuras, encontros e desencontros, num trabalho realizado durante e após a gravidez, na maternidade, no consultório, ao domicílio, e se necessário até ao 2º ano de vida da criança.

Oferecendo ao casal grávido ou à grávida um espaço acolhedor e empático, onde se pode falar de todas as emoções, de todos os medos, pensamentos, dúvidas e desejos. Um lugar onde se pode esclarecer sobre o normal desenvolvimento de um bebé e um lugar onde é possível transformar os receios e as dúvidas. Um lugar onde se pode, desde logo, trabalhar o bonding e a vinculação, focando-se no desenvolvimento da nova família, na ressonância empática face às questões dos pais e integração dos novos papéis.

De acordo com a vivência parental da gravidez e do desenvolvimento do feto/bebé, a intervenção psicoterapêutica, realizada na maternidade, em consultório ou ao domicílio, pode constituir-se como um momento de reanimação emocional e psíquica dos pais em relação ao seu bebé, em caso de perturbação do vínculo dos pais ao feto/bebé, funcionando como uma intervenção precocíssima da saúde mental, emocional, física e cognitiva do feto/bebé/futura criança.

A consulta psicoterapêutica pré-natal deve dirigir-se, pois, ao trabalho do bonding, procurando compreender, na história de vida daquela mulher, as razões que lhe estão a impossibilitar de viver uma gravidez mais livre e gratificante, ligando-se ao seu bebé e deixando-se ser ligada por ele.

Um dos factores é ter em conta é a disponibilidade dos pais para a parentalidade. Outro dos factores a analisar é a qualidade relação do casal, uma vez que os estudos apontam para uma relação directa entre a qualidade da relação do casal antes da gravidez e após o parto e uma relação directa entre a qualidade desta relação e a capacidade da mulher em superar o cansaço e a perturbação ligeira do humor (conhecida por blues pós-parto) decorrentes do parto e estar mais disponível para se ligar ao seu bebé.

Na relação terapêutica com pais e bebés, o psicoterapeuta deve colocar-se na posição de cada um dos elementos, mãe, bebé, pai, auscultando dentro de si o impacto da relação estabelecida entre todos. Colocando-se na pele de cada um dos protagonistas, o terapeuta pode dar voz ao silêncio gritante que os desencontros produzem.

Compreender todas as emoções co-existentes na cena terapêutica com a família não é fácil. A presença de um bebé coloca-nos diante das nossas emoções mais precoces, desencadeia lembranças não-verbais da nossa própria relação primária, exige que auscultemos as emoções e as necessidades mais profundas, reconhecendo a dependência daquele ser face ao adulto e o desamparo sentido quando a resposta sensível e contingente não surge na comunicação dos pais.

Qual arqueólogo, o psicoterapeuta está atento à descoberta do mais ínfimo sinal de “reconhecimento” no olhar, no gesto, na vocalização de qualquer um dos elementos; à mais ínfima manifestação de um desejo de ligação. Cuidadoso, vai dando voz a este desejo de encontro, soterrado por experiências de desencontro traumatizantes… Reconhecendo como o bebé muitas vezes pode funcionar como um co-terapeuta.

A sensibilidade deve ser grande para não culpabilizar pais, não assustar afectos tão frágeis… ou normopatizá-los (ou seja, nem tão pouco é válido que o trabalho do terapeuta incida sobre o ensinamento de como lidar com aquele bebé, nem é desejável que os pais procurem esconder a sua insegurança aderindo às intervenções terapêuticas, sem que isso se traduza numa revolução genuína instalada no coração e cérebro daqueles pais, movida pela mudança impulsionada pela intervenção activa e interessada do terapeuta). O papel do terapeuta é semelhante ao do pescador do provérbio chinês: ensinar a pescar, e não dar o peixe.

Ao constituir-se como um novo elemento activo na relação diádica, o terapeuta procura criar um novo sistema, pais-bebé-terapeuta, que ofereça uma experiência relacional diferente. Interessando-se em perceber o porquê daquela qualidade relacional, o psicoterapeuta vai-se oferecendo como aparelho pensante e auxiliando na descontaminação e na co-construção de uma nova narrativa e, em simultâneo, introduzindo o bebé como objecto de (re)conhecimento e de relação. Ao mesmo tempo que compreende aquele bebé inserido nas características da relação actual, empatizando com a história de vida dos pais, o terapeuta permite-se dar voz ao desejo silenciado de encontro.

Referência Bibliográfica

Coimbra de Matos, António (2007), Vária. Existo porque fui amado. Climepsi Editores.