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Otites e desenvolvimento da linguagem

Otites e desenvolvimento da linguagem

Influência da otite antes dos 18 meses e possíveis repercussões no desenvolvimento da fala.

As otites na criança pequena são muito comuns e recorrentes com a entrada para o berçário ou creche dos nossos pequenos. Com os Invernos frios e húmidos, muitos pais descrevem a saga do caminho para o médico ou urgência, os antibióticos, dores e outras tantas noites mal dormidas… Esta condição que interfere muito no desenvolvimento da fala e da linguagem das crianças, requer uma atenção redobrada no primeiro ano de vida. Sabemos que a audição é sem dúvida o sentido mais importante para a aquisição da linguagem.

É através do feedback estabelecido entre fala e audição que a criança adquire as suas referências auditivas que a irão ajudar na constituição dos conceitos básicos para a construção da linguagem e futuras aprendizagens.

Com as otites recorrentes verifica-se uma redução auditiva ou perda auditiva por influência sobretudo da otite serosa no primeiro ano de vida. Sabemos também que há uma janela de oportunidade para a criança desenvolver a linguagem e isso acontece ao nível do córtex cerebral mesmo antes que consiga verbalizar, pôr em sons ou palavras. Esta pré-estruturação da linguagem tem a ver com a construção da rede sináptica do sistema nervoso auditivo central.

Sabemos que a aquisição da linguagem decorre de um processo dinâmico e gradual e que cada criança tem o seu ritmo mas quando falamos de janela de oportunidade quer dizer que até ao segundo ano de vida da criança há predomínio da maturação das funções visuais e auditivas e que depois, por execução de um programa biológico, a maturação passa a ser feita noutras áreas.

O pico da linguagem dá-se no primeiro trimestre do primeiro ano, com um desvio aceitável de 3 meses, portanto até aproximadamente aos 18 meses. Naturalmente, essa diferenciação sináptica continua até perto dos 3-4 anos mas há um período mesmo crítico de desenvolvimento até perto de 1 ano e meio.

O problema das otites tem repercussões, em primeiro lugar porque há uma redução que pode ser mais ou menos significativa da perceção dos sons da fala e, segundo, porque existe ruído geralmente junto à cóclea (órgão da audição) que é causado pelo fluido existente no ouvido médio e que tende a distorcer a perceção sonora. Quando a criança perceciona estímulos sonoros de forma distorcida ou omissa pode levar a dificuldades de articulação verbal, por exemplo com a omissão e/ou troca de sons, sobretudo na discriminação auditiva de palavras muito parecidas.

Isso significa que haverá alterações ao nível da consciência fonológica, o que tem a ver com a representação mental dos sons não estar consolidada. Alguns autores conferem a essas alterações alguma continuidade até perto dos 11 anos, pois as perdas auditivas tendem a ocorrer durante o desenvolvimento do sistema nervoso, com repercussões não só nas competências linguísticas mas também na capacidade de atenção e no comportamento da criança.

Este último aspeto referente ao comportamento também tende a ocorrer devido à presença de líquido seroso nas cavidades dos ouvido médio, verificando-se um desconforto grande na criança que pode manifestar-se mais irritável.

É frequente este desconforto se associar a pertubações do comportamento na primeira infância, em função do temperamento da crianças e dos níveis baixos de tolerância à frustração. O líquido seroso provoca uma sensação que os irrita e as crianças evitam falar, apontam e não dizem porque têm tendência a ouvir em eco, segundo uma investigação da Universidade da Carolina do Norte (2013). Nestas idades e perante as otites recorrentes, o terapeuta da fala pode ser um profissional importante no trabalho com as famílias.

Fomos ao encontro da nossa parceira Dra. Vanessa Bento, terapeuta da fala, para que nos esclarecesse este assunto. Leia, de seguida, a entrevista que realizámos.

1. O que é a otite média e porque ocorre com maior prevalência em crianças?

A otite média é uma inflamação ou infeção do ouvido médio e pode ocorrer por vários fatores etiológicos, como a disfunção da trompa de Eustáquio, alergias, infeções respiratórias das vias aéreas superiores ou o crescimento excessivo de tecido que constitui uma obstrução da trompa de Eustáquio, o que resulta num abaulamento do tímpano. [1]

Os principais fatores de risco para otites são o baixo peso ao nascimento, a idade precoce do primeiro episódio de otite, pois há tendência para a sua repetição, histórico de alergia, congestão nasal, presença de bactérias na nasofaringe e histórico familiar. Para além do referido, as otites têm uma maior frequência de ocorrência em crianças, pois estas apresentam a trompa de Eustáquio mais horizontal do que na idade adulta, o que favorece a repetição dos episódios de otite média.[2]

Segundo a American Speech and Hearing Association, 50% das crianças com um ano de idade já apresentaram pelo menos um episódio de otite, havendo uma maior prevalência na primeira infância, sendo que a ocorrência das otites diminui com o crescimento.2

2. Qual é a relação da ocorrência de otites com o desenvolvimento da fala e da linguagem?

Os órgãos auditivos estão formados a partir do terceiro mês de gestação, podendo o  feto ouvir os batimentos cardíacos e as vozes que o rodeiam. Quando o bebé nasce, começa a ouvir os seus próprios sons, começa a distinguir os sons humanos dos outros sons e as diferentes qualidades vocais (vozes graves e agudas).[3]

Quando ocorre uma otite a criança tem uma perda auditiva temporária. Sabendo que é através da exposição sonora que a criança desenvolve competências auditivas, de processamento e identificação dos sons da fala, a ocorrência de otites recorrentes irá fazer com que a criança não consiga apreender o estimulo auditivo durante esses momentos, dificultando a perceção da fala e consequentemente a sua aprendizagem.

Posto isto e tendo em conta que é através da audição que também processamos os sons da fala que compõem as palavras e frases que produzimos, a entoação e as intenções comunicativas associadas (ex: repreensão ou carinho), esta perca momentânea pode ainda interferir com a capacidade de compreensão do que ouvimos. [4]

Deste modo, podem surgir alterações na fala como substituições e/ou omissões dos sons, mas também dificuldades no desenvolvimento da linguagem ao nível da expressão e compreensão (ex: nomeação, produção de frases, compreensão de ordens).

3. A ocorrência de otites nos primeiros anos de vida tem influência na aprendizagem da linguagem escrita?

A audição é um sentido complexo que envolve uma porção periférica responsável pela sensação de som e uma porção central que se refere ao “caminho” percorrido pelo som ao longo do Sistema Nervoso Central até ao córtex aditivo, é neste caminho que a mensagem auditiva é processada e interpretada. As dificuldades neste caminho são visíveis em tarefas como localização sonora e lateralização, discriminação auditiva, reconhecimento dos padrões auditivos e perceção dos aspetos temporais, a estas dificuldades damos o nome de Perturbação do Processamento Auditivo (PPA). Nestes casos, a audição dos indivíduos é normal, e a causa destas dificuldades é desconhecida, contudo há uma série de fatores que podem estar associados à sua etiologia, como é o caso das otites médias.4

Os indivíduos que apresentem uma PPA têm muitas vezes associadas dificuldades noutras áreas, como na linguagem, na aprendizagem e no comportamento. Nestes casos, é necessário que seja realizado um acompanhamento não só nos componentes auditivos, mas também no desempenho (meta)linguístico. 4

Posto isto, ouvir é interpretar um som, estar atento aos sons, perceber o que nos dizem em meios ruidosos, memorizar uma instrução e, também, perceber a diferença entre os sons da fala (fonemas) e conseguir distingui-los transpondo-os para a escrita.4

Conclusão

Em psicologia, a linguagem é das componentes mais importantes na estruturação e organização da forma de vermos as coisas, de olharmos para o mundo à nossa volta e de nos vermos a nós próprios. Podemos ainda pensar que a relação da criança com o mundo envolvente – ambiente físico e relacional através das figuras principais cuidadoras e respetivas condições sociais – beneficia do banho permanente da cultura envolvente e dos processos relativos ao significado das coisas e dos outros.

O pensamento e a linguagem constituem-se como uma síntese maravilhosa de inúmeras determinações de significados apreendidos pela criança a partir da sua vivência no mundo. A relação entre pensamento e linguagem configura-se em cada uma das nossas crianças como uma unidade de formas de estar e de se relacionar tão diversas e singulares a cada criança e que se concretizam de forma intensa nas palavras ou outras formas de comunicação com o significado que os adultos ou as outras crianças lhe atribuem.

Esteja atento a este importante marco de desenvolvimento e esclareça as suas dúvidas com o pediatra assistente, otorrino ou terapeuta da fala.

[1] Van Riper, C. & Emerick, L. (1990) Correção da Linguagem. Uma introdução à patologia da fala e à audiologia. São Paulo. Artes Médicas Sul.

[2] Wertzner HF, Pagan LO, Galea DES, Papp ACCS. (2007) Características fonológicas de crianças com transtorno fonológico com e sem histórico de otite média. Revista da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia.

[3] Associação Portuguesa de Audiologistas. (2001) Deficiência Auditiva. Lisboa. Secretariado Nacional para a Reabilitação e Integração das pessoas com deficiência.

[4] Nunes, C.L. (2015) Processamento Auditivo. Conhecer, avaliar e intervir. Lisboa. Papa-Letras.

A tabela que se segue apresenta, de forma resumida, os principais marcos representativos do desenvolvimento linguístico de uma criança até aos 2 anos de vida. Em contraste apresenta, igualmente, os sinais que poderão indicar a existência de uma perda auditiva. [a]

[a] ASHA (n.d). Types of Hearing Loss. Obtido a 28 de fevereiro de 2017 de http://www.asha.org/public/hearing/Types-of-Hearing-Loss/; Associação Portuguesa dos Técnicos de Audiologia. (2001). A deficiência auditiva. Lisboa: Secretariado Nacional para Reabilitação e Integração das Pessoas com Deficiência.

Artigo escrito em co-autoria por Ana Beatriz Saraiva e Vanessa Bento ([email protected] | 965 693 867 | www.facebook.com/TFVanessaBento)

 

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