Saiba quais são os sinais de alarme da Apneia Infantil, como deve ser feito o diagnóstico e que opções de tratamento existem
O ressonar não escolhe idades e, nas abobrinhas, nem sempre é apenas um som inofensivo que se ouve durante a noite. Muitas crianças respiram com dificuldade enquanto dormem e, em alguns casos, podem mesmo ter pausas na respiração sem que os pais se apercebam de imediato. Quando a Apneia Infantil acontece, o sono deixa de ser verdadeiramente reparador e podem surgir impactos no comportamento, na aprendizagem e no crescimento.
Como distinguir o ressonar “normal” de um sinal de alerta de apneia infantil? Que sintomas devem preocupar os pais e os cuidadores? Como se faz o diagnóstico e que opções de tratamento existem?
Com o apoio da Dr.ª Ana Nóbrega Pinto, otorrinolaringologista da Clínica ORL, reunimos neste artigo a informação essencial sobre roncopatia e apneia do sono em crianças, para ajudar as famílias a reconhecer os sinais e a saber quando procurar ajuda.
O descanso nocturno é um pilar essencial do desenvolvimento infantil. É enquanto dormem que as crianças crescem, consolidam aprendizagens e regulam funções importantes do organismo. Quando o sono é fragmentado ou de má qualidade, os efeitos fazem-se sentir no dia-a-dia e, a longo prazo, podem afectar o comportamento, a atenção, o rendimento escolar e até o crescimento.
Aquilo que parece ser “apenas ressonar” pode, afinal, estar relacionado com uma obstrução das vias aéreas e com um sono pouco reparador.
A boa notícia é que este problema pode ser identificado e tratado. O primeiro passo é saber que sinais de Apneia Infantil devem colocar pais e cuidadores em alerta.
Sabia que…
» entre 10 a 15% das crianças apresentam algum grau de roncopatia (ressonar)?
» cerca de 1 a 3% das crianças sofrem de Síndrome de Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS), uma situação mais grave caracterizada por paragens respiratórias repetidas durante o sono?
Roncopatia e Apneia Infantil: quais são os sinais de alarme?
Os sinais podem surgir durante a noite e durante o dia. E, nas crianças, nem sempre são óbvios à primeira vista.
Se a sua abobrinha:
- Ressona de forma intensa e persistente, mais de três noites por semana;
- Faz pausas ou paragens respiratórias observadas pelos pais ou cuidadores;
- Dorme frequentemente de boca aberta;
- Baba-se muito durante a noite;
- Assume posições pouco habituais para dormir, como manter o pescoço muito esticado;
- Tiver um sono agitado, com despertares frequentes;
- Apresenta suores nocturnos;
- Em alguns casos, voltar a fazer xixi na cama.

Estes sinais podem indicar que está a fazer um esforço acrescido para respirar durante o sono, tentando ultrapassar uma obstrução das vias aéreas superiores.

Durante o dia, os sinais podem ser diferentes do que acontece nos adultos
Ao contrário dos adultos, que tendem a ficar muito sonolentos, as crianças podem reagir de outra forma a um sono de má qualidade.
É frequente surgir:
- Hiperatividade e agitação;
- Dificuldades de atenção, memória e aprendizagem;
- Irritabilidade ou outras alterações de comportamento;
- Respiração habitual pela boca;
- Voz com tom mais anasalado;
- Dores de cabeça ao acordar.
Quando a situação se prolonga, pode mesmo observar-se um atraso de crescimento, uma vez que a fragmentação do sono interfere com a produção da hormona de crescimento, que ocorre sobretudo durante o sono profundo.
Como deve ser feito o diagnóstico de Apneia Infantil?
O diagnóstico começa sempre por uma avaliação clínica cuidadosa feita por um médico otorrinolaringologista ou por um especialista em medicina do sono pediátrico. A história clínica detalhada é essencial para perceber os sintomas e a sua gravidade.
Durante a consulta, o médico observa, entre outros aspetos, o tamanho das amígdalas e adenóides, a anatomia da cavidade nasal e o padrão respiratório da criança. Em alguns casos, pode ser realizada uma nasofibroscopia, um exame rápido e geralmente bem tolerado, que permite ver diretamente as vias respiratórias superiores e identificar o grau de obstrução.
A polissonografia (o chamado “estudo do sono”) é o exame de referência para confirmar e avaliar a gravidade das apneias, mas não é necessária em todos os casos. Costuma ser indicada quando há dúvidas entre os sintomas e o exame físico, quando existem fatores de risco específicos (como malformações craniofaciais ou doenças neuromusculares) ou quando os sintomas persistem após cirurgia. Este exame regista parâmetros como o fluxo respiratório, os movimentos do tórax, a oxigenação e a arquitetura do sono.
Em situações particulares, podem ainda ser pedidos exames de imagem ou uma avaliação multidisciplinar, envolvendo especialidades como a pediatria, a pneumologia ou a ortodontia.
Que opções de tratamento existem para Roncopatia e apneia do sono em crianças?
O tratamento depende sempre da causa e da gravidade da obstrução.
Nos casos mais graves ou quando não há resposta ao tratamento médico, a opção passa pelo tratamento cirúrgico. Como o aumento das adenóides e das amígdalas é a principal causa de SAOS pediátrica, a adenoamigdalectomia (remoção dessas estruturas) é o tratamento de primeira linha. É uma intervenção considerada segura e eficaz, que permite uma melhoria significativa da respiração, do sono e do comportamento da criança.
Nos casos ligeiros, pode optar-se por tratamento médico. Este inclui, habitualmente, terapêutica anti-inflamatória nasal com corticosteróides tópicos e montelucaste, sendo especialmente útil quando existe rinite alérgica associada. O controlo do peso, quando necessário, e a correção de hábitos que prejudicam o sono, como a exposição ao fumo do tabaco ou horários irregulares, também são importantes,

Em situações específicas, sobretudo em crianças mais crescidas, podem ser necessárias outras cirurgias complementares, como a correção do desvio do septo nasal ou intervenções no palato, para otimizar a via aérea superior. Quando os sintomas persistem após a cirurgia, é fundamental uma nova avaliação multidisciplinar e, em alguns casos, pode ser necessário recorrer a ventilação não invasiva (CPAP) durante o sono
O ressonar numa criança não deve ser encarado como algo normal ou inofensivo. Pode ser o primeiro sinal de um problema com impacto real no crescimento, no comportamento e no desenvolvimento global.
Perante sinais de alarme, a avaliação por um especialista em Otorrinolaringologia é o caminho certo para identificar a causa, confirmar o diagnóstico e escolher o tratamento mais adequado, ajudando a devolver à criança um sono verdadeiramente reparador.

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