Mudar de casa com filhos não é uma mudança. É uma operação militar com pequenos sabotadores internos.
Antes de terem filhos, vocês mudaram-se duas ou três vezes. Foi cansativo, mas foi rápido. Em três dias, a casa nova estava habitável. Em duas semanas, parecia que sempre tinham vivido lá.
Agora, com a vossa abobrinha (ou abobrinhas) pelo meio, descobriram uma verdade nova: mudar de casa com filhos não é uma mudança. É uma operação militar com pequenos sabotadores internos.
Os miúdos não percebem que vocês estão a tentar embalar. Para eles, as caixas são castelos. As caixas vazias são esconderijos. As caixas cheias são desafios para entornar. E o vosso telemóvel, em modo “ainda não consegui marcar a empresa de mudanças”, toca de cinco em cinco minutos.
A fantasia da mudança organizada
A fantasia é mais ou menos esta: vocês começam a embalar duas semanas antes. Têm caixas etiquetadas por cómodo. Os miúdos ajudam, com entusiasmo. No dia da mudança, está tudo numa lista. Ao domingo à noite, jantam na casa nova com uma pizza, todos cansados mas felizes.
A realidade é outra. As caixas começam a aparecer cinco dias antes e até então a vossa abobrinha pensa que vai continuar a viver na mesma casa para sempre. As etiquetas são manuscritas à pressa, ilegíveis. Os miúdos “ajudam” da maneira que sabem: tiram da caixa o que vocês acabaram de pôr lá dentro. No dia da mudança, alguém perde uma chupeta crítica. Ao domingo à noite, jantam pizza sentados no chão da casa nova, sem encontrarem os pratos.
Mas conseguiram. Sempre se consegue. E a casa nova vai começar a parecer vossa muito mais depressa do que acham agora.
A semana antes: embalar com um bebé ao colo
Há um truque que muitos pais aprendem tarde demais: embalar à vez, e não tudo de uma vez. Esquecem o método de “vou embalar a sala inteira hoje”. Não vai acontecer. Não com filhos.
O método que funciona mesmo é o oposto: vinte minutos a embalar enquanto o bebé dorme a sesta. Trinta minutos enquanto a vossa abobrinha mais velha está a ver desenhos. Mais quinze minutos depois deles irem para a cama. É um trabalho de formiga, mas é o único que dá com crianças em casa.
Outra dica que parece óbvia mas raramente é seguida: deixem para o fim a caixa dos brinquedos do dia. A vossa abobrinha vai precisar de alguma coisa para fazer enquanto vocês embalam o resto. Tirar todos os brinquedos no dia 1 é sabotar a vossa própria operação.
A casa antiga tem de ser entregue como uma casa
Esta é uma parte que muitos pais subestimam: a casa antiga raramente vai vazia para o senhorio ou para os novos compradores. Vai num estado intermédio: paredes com manchas de mãos pequeninas, frigorífico com pegadas de iogurte na porta, uma riscadela de lápis de cera na parede da sala que vocês juraram apagar e nunca apagaram.
A maioria dos contratos exige uma entrega “em boas condições de limpeza”. E há sempre uma caução em jogo. Faz sentido agendar um serviço de limpeza profissional com o FIXO para o dia depois da mudança – quando a casa já está vazia e dá para fazer o trabalho a sério, sem miúdos a correr e sem caixas pelo meio.
A mesma decisão pode ser feita para a casa nova, antes de entrarem com a família. Uma casa nova nunca é tão limpa como parece. O que parecia “impecável” na visita revela-se com pó nos rodapés, cantos por aspirar e uma cozinha que ninguém esfregou a sério há meses. Limpar tudo antes de chegarem com os miúdos é mais rápido (e mais barato) do que tentar limpar com as caixas já espalhadas pelas divisões.
A casa nova precisa de estar segura antes de ser bonita
Há uma sequência mental que muitos pais novos invertem. Começam pela decoração – onde fica o sofá, qual a cor da parede do quarto da abobrinha, onde se pendura o quadro da família.
Mas há coisas mais importantes do que a decoração que precisam de ser tratadas antes da mudança propriamente dita. E a primeira é a segurança da própria casa.
- Canalização: vocês não sabem em que estado estão os canos. Pode haver uma fuga lenta debaixo da cozinha que ninguém notou. A torneira do duche pode estar a pingar de um sítio que vai criar problemas em três meses. A mangueira da máquina de lavar pode precisar de ser substituída. Vale a pena chamar um serviço de canalizador para fazer uma vistoria geral antes de a família entrar – é mais barato resolver agora do que viver a primeira inundação na semana três.
- Eletricidade: o quadro elétrico está em condições? As tomadas no quarto do bebé têm proteção? O quarto da vossa abobrinha mais velha precisa de candeeiro de mesa de cabeceira, novas tomadas para o tablet, um ponto de luz que não foi pensado pelo dono anterior. Um serviço de eletricista pode resolver tudo numa manhã, idealmente antes da mudança em si.
- Tratar disto antes de pôr a mobília significa que a casa nova já é segura no dia em que a vossa família lá dorme pela primeira vez. E essa primeira noite – toda a gente exausta, num sítio novo – é uma noite em que vocês querem o mínimo de coisas a poder correr mal.
O dia da mudança (e a primeira noite)
Se conseguirem, deixem os miúdos com avós, padrinhos ou tios no dia da mudança. Não há nada produtivo que crianças possam fazer durante uma mudança. Há, isso sim, muita coisa que pode correr mal por causa delas.
Façam uma “caixa de primeira noite” e deixem-na num sítio óbvio: pijamas para todos, escovas de dentes, lençóis para uma cama, uma chupeta de reserva, comida para um pequeno-almoço improvisado, papel higiénico. Isto poupa-vos uma hora de pânico nocturno.
A primeira noite na casa nova é sempre estranha. A vossa abobrinha vai chorar. Vocês vão dormir mal. É normal. Daqui a duas semanas, esta casa vai começar a cheirar a vossa.
Uma última coisa
Mudar de casa com filhos é uma das coisas mais cansativas que existem na parentalidade mas também é uma das que cria mais memórias. Os miúdos lembram-se sempre da primeira casa de que se lembram. E a casa nova vai ser, para a vossa abobrinha, “a casa onde crescemos”.
Vale a pena, no meio do caos, parar dois minutos para perceber isso.
Famílias felizes não fazem mudanças perfeitas. Fazem mudanças com bom humor e com a infraestrutura tratada antes de a primeira mala entrar.
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