"À Solta na Internet": sabem quem fala com os vossos filhos online? - Pumpkin.pt

“À Solta na Internet”: sabem quem fala com os vossos filhos online?

3 perfis falsos de meninas de 12 anos atraíram 2.458 predadores em 10 dias, na experiência social que deu origem ao documentário Checo “À Solta na Internet”.

Existem cada vez mais crianças e adolescentes com perfis nas redes sociais. “É um perigo, não deviam ter internet!”, dizem uns. “Ó mãe, não exageres!”, dizem outros. Mas quais são realmente estes perigos da internet, como é que chegam à vida das crianças e o que é que podemos fazer para criarmos uma relação saudável entre elas e esta ferramenta que vai inevitavelmente fazer parte das suas vidas?

À Solta na Internet” é um documentário de Barbora Chalupová e Vít Klusák (República Checa) que expõe a realidade da exploração de crianças online – infelizmente, uma que é muito comum e que passa ao lado de muitos pais e cuidadores.

O projeto desenvolveu-se em volta de três atrizes (maiores de 18 anos) que se fizeram passar por meninas de 12 anos nas redes sociais, através de perfis falsos e com o auxílio de quartos infantis criados em estúdio.

O filme mostra uma realidade dura e dramática, em que os perigos da internet e das pessoas que se servem dela para explorar crianças são desvendados de uma forma crua e sem encenações.


“À Solta na Internet”, distribuído pela Zero em Comportamento, estreia a 28 de outubro nos cinemas. O filme terá duas versões. A mais longa, com 100 minutos, estará disponível para o público em geral, enquanto uma versão mais curta, com comentários e avisos por parte das três atrizes, estará disponível para as escolas marcarem sessões em horários especiais e em cinemas.

Conversámos com o Vít Klusák (realizador) e com a Tereza Tezka (atriz), que partilharam muito do que aprenderam durante este processo e apelaram a uma gestão cuidadosa (não a uma privação!) da atividade dos mais novos na internet.

Se este é um tema que vos preocupa, leiam também este testemunho de “Isabel”, uma jovem de 14 anos que deu por si numa situação de abuso online, acompanhado por dicas úteis da Dra. Tânia Paias, Psicóloga especializada na avaliação e acompanhamento das problemáticas associadas ao Bullying e Diretora do Portal do Bullying.

Entrevista com Vít Klusák e Tereza Tezka: os miúdos, a internet e os predadores

O que é que vos levou a produzir o documentário neste formato específico, simulando três jovens raparigas e os seus quartos? Porque é que sentem que as pessoas precisam de ver?

Vít: No outono de 2017, fomos contactados por um dos maiores fornecedores de internet da República Checa com um pedido para fazermos um video viral que mostrasse de forma dramática o forte aumento no número de crianças vítimas de abuso na internet Checa. Decidi trazer para o projeto a minha colega Barbora Chalupová e, juntos, conduzimos uma pesquisa sob a forma de um teste, criando um perfil falso com um aspecto autêntico de uma menina de 12 anos, a Teeny, e esperando para ver o que acontecia.

Num espaço de 5 horas após o perfil estar online, 83 homens com idades entre os 23 e os 63 anos tinham contactado a rapariga, a esmagadora maioria com propostas explícitas de masturbação mútua através de chats de video.

Vít Klusák, Realizador

Muitos mandaram fotografias dos seus pénis eretos sem qualquer aviso, enquanto que outros enviaram links para todos os tipos de pornografia, inclusive pornografia com animais.

Nesse mesmo final de tarde, quatro homens gratificaram-se em frente à câmera web, sem que a Teeny aparecesse sequer… Dentro de alguns dias, percebemos que este fenómeno tinha os ingredientes para ser um documentário de longa metragem independente, e não apenas um pequeno video viral.

Com esta experiência, devem ter aprendido imenso sobre a forma como os abusadores atuam online. Em que idades começam os abusos? As raparigas são mais frequentemente atacadas do que os rapazes? Existem fatores nas redes sociais que tornam as crianças mais vulneráveis perante estes predadores?

Vít: Trabalhámos este tema durante mais de 2 anos, e já passou mais de um ano desde que o documentário foi distrubuído, pelo que neste período de tempo aprendemos imenso sobre este fenómeno. No entanto, continua a não deixar de nos perturbar.

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As atrizes com o realizador.

Não diria que se trata de uma questão de uma certa idade, nível de educação ou quantia de dinheiro que tens na tua conta. Esta realidade está presente em todo o tecido social.

Não temos nenhum rapaz no nosso filme porque não foi possível encontrar um rapaz com mais de 18 anos que mantivesse a aparência de 12 – barba, alterações de voz, etc. Mas o problema afeta rapazes e raparigas da mesma maneira. Por vezes, os meninos são alvos ainda mais fáceis porque são mais ingénuos. Estas crianças não pensam nas situações de forma crítica, pelo que se tornam mais vulneráveis perante os predadores.

Durante o período de rodagem do filme e nos meses que o antecederam, imaginamos que tenham estado bastante envolvidos nestas questões. Tiveram contacto com histórias sobre o abuso online que achem importante partilhar connosco?

Vít: Sim, deparámo-nos com muitas histórias – cada uma mais triste do que a outra. Uma delas foi muito impactante. A seriedade do assunto, talvez até o fenómeno entrincheirado do abuso de menores na internet, é ilustrado por esta história que teve lugar em Brno (a segunda maior cidade Checa).

Uma rapariga de 13 anos visitou o seu pai – o chefe de um dos hospitais em Brno – no trabalho e pediu-lhe o telemóvel emprestado, uma vez que o dela estava sem bateria. Quando voltou para casa, o médico reparou que a filha se tinha esquecido de terminar a sessão da sua conta de Messenger no telemóvel do pai. Na janela ainda aberta, o pai encontrou uma conversa indescritivelmente grosseira em que a sua filha se correspondia com um homem mais velho.

O diálogo incluía sugestões de atos sexuais avançados, uma descrição daquilo que eles já tinham explorado juntos, e por aí fora… o pai tinha discutido a questão da cibersegurança com a filha repetidamente, para garantir que a filha não confiaria em ninguém na internet. Então, o médico debateu o assunto com a sua esposa e, juntos, confrontaram a filha com a repugnante descoberta no telemóvel.

A filha deles chorou e confessou. Mas confessou algo que nenhum dos dois alguma vez teria pensado, nem no seu sonho mais descabido: não havia nenhum homem obsceno, ela criou o perfil dele e toda a conversa era falsa – foi ela que a escreveu para si mesma.

Os pais não compreenderam. Porque é que ela estava a fazer aquilo? E porque é que ela era tão vulgar e obscena quando escrevia no papel de um sedutor mais velho?

A resposta da rapariga é uma das chaves para outra das grandes motivações para fazermos este filme: “A maioria das raparigas na nossa turma estão a falar online com alguém mais velho desta forma, e eu estava envergonhada por não estar a fazê-lo. Parece que ninguém se importa comigo… Por isso, tive de inventar este homem e de falsificar a conversa”.

Vít Klusák, Realizador

A que sinais de alerta devem pais e crianças prestar atenção para se manterem em segurança?

Tereza: Os pais e os professores deveriam falar frequentemente com as crianças sobre esta questão social. Mesmo que os vossos filhos estejam educados sobre isto, não significa que estejam seguros. Como podem comprovar na história acima, a pressão dos pares é enorme.

Um dos quartos infantis criados no estúdio.

Para além disso, os miúdos são muito curiosos, e muitas vezes sentem-se mais atraídos pelas coisas simplesmente porque são proibidas. Eu diria que um sinal de alerta é, por exemplo, quando a criança muda o seu comportamento de forma extrema e deixa de querer conversar.

Como pais e cuidadores, deveríamos saber de todas as pessoas com quem as nossas crianças falam online? Como podemos mantê-las seguras sem invadir o seu espaço pessoal?

Vít: A confiança é essencial. Porque mesmo que verifiques todas as mensagens que a tua criança envia, isso não significa que ela não tem outro perfil ou outro telemóvel. Deves falar com as tuas crianças sobre este problema e garantir que elas sabem que és um amigo ou um aliado.

Dessa forma, talvez eles tenham consciência do que pode acontecer na internet, e quiçá sejam muito cuidadosos. Ou, caso algo deste género lhes aconteça, não tenham medo de vir ter contigo e pedir ajuda antes que seja tarde demais.

O que aconteceu aos mais de 2 mil predadores sexuais que encontraram online? Conseguiram denunciá-los de alguma forma?

Um dia de gravações no estúdio.

Vít: Quando acabámos as filmagens, juntámos todo o material e encaminhámo-lo para o departamento de cibercrime para que pudesse analisá-lo. Por causa do nosso filme, foram abertos 52 casos – alguns deles ainda estão a decorrer. A polícia descobriu que a maioria dos predadores estavam de facto a conversar ou a encontrar-se com verdadeiras crianças de 12 anos.

Dois homens vão supostamente ser presos, mas é maioritariamente devido a outros casos – um deles, por exemplo, tinha muita pornografia infantil no seu computador, o outro estava em liberdade condicional por causa do nosso filme e tentou contactar e conhecer outra rapariga real de 12 anos. A pena para estes crimes é bastante baixa no nosso país, e essa é uma das coisas que queremos mudar.

Tereza, como foi habitar a pele de uma menina de 12 anos online durante 10 dias? O que sentiste?

Tereza: Todas nós (as três atrizes) passámos por longas preparações – houve até um trabalho de casa em que tivemos de escrever uma composição sobre o mundo em que as crianças de 12 anos vivem. Também passei muito tempo com o meu irmão mais novo e com o meu primo, que têm esta idade, pelo que pude observar o mundo deles e ser capaz de o recriar em mim mesma.

Um dos quartos infantis criados em estúdio.

Para além disso, com o estúdio que foi montado à nossa volta, para onde trouxemos mesmo objetos da nossa infância, foi muito fácil entrar na pele de raparigas jovens. Por um lado gostei das filmagens, mas por outro as coisas que vi foram assustadoras. Não consigo imaginar estar exposta a algo assim quando tinha esta idade.

Se te fosses tornar realmente na rapariga que representaste, o que farias de forma diferente para te protegeres?

Tereza: Do meu ponto de vista, a comunicação é a chave para tudo – ter uma relação com os teus pais em que és capaz de falar sobre estas coisas de forma aberta. Também não seria tão ingénua quanto fui antes de passar por esta experiência. Mas acho que isso não é algo que se possa aprender sem passar mesmo pela situação.

Se pudesse dizer algo a mim mesma, seria: Acredita nos professores, pais e amigos mais velhos quando eles te dão conselhos sobre o mundo online. Eles querem proteger-te – há um mundo assustador lá fora, e precisas de ter cuidado.

Tereza tezka, atriz

Tereza, o que gostarias de dizer às crianças que passam por estas situações? O que dirias aos pais para que possam proteger os seus filhos?

Tereza: É importante que as crianças saibam que têm o apoio total dos pais, e que o tenham efetivamente. Que possam confidenciar-lhes qualquer coisa, e que não reprimam. Como se pode ver no filme, que tive a oportunidade de experienciar por mim mesma, é muito fácil ser sugado. Nós não contactámos nenhum predador primeiro. Enquanto comunicávamos, seguimos um código rígido que ditava o que podiamos escrever e dizer – e, mesmo assim, demos por nós em situações incríveis.

Um dos cenários criados em estúdio.

Também é importante que os pais tenham noção do que é que os filhos fazem nas redes sociais. Não estou a falar de um controlo austero, mas mais de uma parceria. Mostrar interesse naquilo que a criança gosta de fazer online, talvez ajudá-los a criar as suas contas nas redes sociais. A comunicação e a confiança são extremamente importantes.

As crianças, especialmente nesta idade, têm um milhão de perguntas sobre os seus corpos e sobre a sexualidade. É muito melhor falar destes assuntos abertamente com alguém que as conhece intimamente, e que não seja um tabú. Pode acabar com um predador a falar abertamente com eles sobre estes assuntos.

A internet não é só um sítio horrível cheio de precipícios e armadilhas, mas é importante seguir algumas regras de segurança. Recomendo que os pais vão ver este filme com os filhos. Depois, podem até debatê-lo.

TEREZA TEZKA, ATRIZ

Mas também não quereria que os pais barrassem os filhos da internet ou que lhes dissessem que é um lugar mau. Isso não é verdade. A internet é um lugar maravilhoso – muito inspirador.


Muito agradecemos à Tereza, ao Vít e à Zero em Comportamento a amabilidade e a disponibilidade para responder a todas as nossas questões.

A segurança das crianças é um assunto que toca a todos, e por isso devemos informar-nos o melhor que podemos e criar relações baseadas na confiança e na transparência. Concordam? Deixem a vossa opinião nos comentários!

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