Luto Familiar: A dor de perder um pedaço de “Nós” - Pumpkin.pt

Luto Familiar: A dor de perder um pedaço de “Nós”

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Não é fácil lidar com a morte ou ajudar os mais novos a ultrapassá-la – mas é possível. Saibam mais sobre este assunto tão familiar quanto humano.

Ana Vieira, Psicóloga Infanto Juvenil da Oficina de Psicologia, fala-nos sobre o processo de luto, a forma como ele se pode manifestar nas famílias e os diversos modos através dos quais podemos lidar com ele, na infância, na adolescência e na idade adulta.


Porque surge o luto?

A experiência de luto – perda de alguém importante – constitui um acontecimento marcante na vida das pessoas. Mesmo sabendo que a vida é finita, ninguém está preparado para a perda. Vivemos num mundo que foge constantemente do tema, não encaramos a morte de frente. Mas ela aparece na nossa vida, porque a perda é inevitável, por isso, é um assunto da família, de pais e de filhos.

Quando surge, o Luto é uma reação normal e necessária. Corresponde a um processo individual com características específicas, que envolve vários sentimentos e pensamentos. 

Quando alguém importante morre, invade-nos o choque, a negação, a tristeza, a ansiedade, a raiva e a culpa. Estes são os principais sentimentos envolvidos, que variam de pessoa para pessoa, e não ocorrem em todos os casos. Cada um pode vivê-lo de forma distinta.

Durante o processo, é normal que a pessoa se sinta mal e não deve forçar para se sentir bem rapidamente. A morte é sempre difícil! Será sempre uma fase da vida muito difícil e deve ser! Não há outro modo de vivenciá-la. 

O luto na família – como se processa?

Quando falamos do sofrimento de perder um pedaço de “Nós”, refiro-me a “Nós”, singular – indivíduo e “Nós”, plural – família. Porque o Luto é uma experiência vivida tanto individualmente como em contexto da família. A perda influencia a dinâmica familiar, uma vez que o sistema é alterado e todos os membros necessitam de se reorganizar em função dela.

É importante ter presente que todos os elementos estão a sofrer, embora tenham diferentes formas de o demonstrar; e que o ambiente familiar influência a maneira como os elementos vivem e superam a experiência de perda.

Quando a família apresenta um bom funcionamento, ou seja, quando há coesão entre os membros e estes se apoiam entre si; quando há espaço para expressarem os seus pensamentos e sentimentos, a adaptação à perda é mais fácil porque todos colaboram uns com os outros.

Por outro lado, em famílias disfuncionais, nas quais há baixo nível de coesão e de expressividade de sentimentos e pensamentos, a adaptação à perda pode ser complicada. Os membros da família manifestam níveis significativamente mais elevados de sintomas depressivos e de dificuldades psicológicas. 

Do que precisa a família para enfrentar o Luto? Como pode ser bem-sucedida no processo de sofrimento? 

Coesão familiar, muito afeto, contexto apoiante, expressividade de pensamentos e sentimentos, comunicação sobre o tema, aceitação das diferenças de opinião e uma boa dose de honestidade!

Digo isto porque, às vezes, perante a necessidade de proteger o outro, principalmente os mais novos, o adulto pode evitar falar sobre a morte. Em determinados processos, é frequente que os membros da família estejam todos a fazer um grande esforço para não abordarem a morte entre si.

Esta conspiração de silêncio não promove a expressividade e aumenta o isolamento individual. Por isso, falar sobre a morte e exprimir os sentimentos é sempre melhor do que tentar reprimi-los. Viver o luto sozinho, pode tornar-se mais doloroso. Às vezes, o afastamento é a maneira mais simples e tentadora para evitar o sofrimento da perda, mas não é a aconselhada. 

E quanto às crianças e adolescentes?

O processo já é difícil, e torna-se ainda mais complicado quando há crianças e adolescentes. A adaptação das crianças ao luto está em parte dependente do seu entendimento sobre o processo de morte.

Antes dos 2 anos de idade, é difícil a criança integrar o conceito de morte. Esta noção evoluiu à medida que a maturação cognitiva ocorre. Entre os 2 e os 6 anos aproximadamente, a criança vai adquirindo mais consciência da perda. A partir dos 6 anos, a noção de morte torna-se muito clara. Nesta fase, o Adulto deve falar sobre a perda de forma muito simples, evitando explicações pormenorizadas, dando-lhe sempre a maior estabilidade e afeto possível.

Quando a família está a viver um processo de luto, os Pais devem mostrar as emoções aos seus filhos, mesmo as dolorosas. Ver o adulto chorar, por exemplo, ajuda a criança e o adolescente a perceber que é normal e que podem expressar os seus sentimentos sem tentar mascará-los. 

E quando eles fazem perguntas?  O que devo dizer?

Depende! É importante percebermos o que a criança e adolescente quer saber e estar atento às suas questões. Se ela questiona, à partida está preparada para receber a resposta, mas esta deve ser dada de forma simples e com muito cuidado. Se não souber a resposta, permita-se dizer “não sei”. 

No seu livro Diálogo com a Morte, Marie de Hennezel descreve uma maneira simples de explicar a morte a uma criança: “A morte é como um barco que se afasta no horizonte. Há um momento em que desaparece. Mas não é por não o vermos que ele deixa de existir.” Pertence sempre ao pedaço de “Nós”, concorda? 

Não existe receita nem uma forma única para viver o processo de luto. É muito doloroso. Por isso, o melhor conselho que lhe posso dar é: respeite o seu tempo e o da sua família com uma boa dose de sinceridade e afeto. 

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