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Atividades extra-curriculares e a questão de respeitar, ou não, a vontade dos miúdos

atividades extra-curriculares

Fotografia por Ilona Virgin em Unsplash

Deixar fluir a vontade da criança e não contrariar?

Partilhamos este texto que nos chegou por generosidade de Ana Beatriz Saraiva, da Life Academy, e que nos dá uma visão mais especializada, mas ao mesmo tempo muito pessoal, sobre como escolher uma atividade extra-curricular para as crianças. 

Devemos motivar e ajudar a reforçar auto-estima e auto-confiança. Como dizia um entendido nesta área, a criança ou bebé deve perceber que os pais ou cuidadores estão apaixonados por ela, perdidamente, mas não cegos! Devemos sempre ter em linha de conta o progresso.Importante será relembrar que a criança está em desenvolvimento, em plena estruturação cerebral, e que então em idade pré-escolar o desenvolvimento neuronal é muito rápido!

Convém, portanto, não perder marcos de desenvolvimento que nos chegam, sobretudo pelo confronto gerado pelas dificuldades ou limitações. O confronto com os outros, as suas opiniões e vontades, o confronto enfim com a realidade que vivemos. Vamos esclarecer: confronto no sentido de desafio, por inerência causador de stress, e não necessariamente de dano ou violência.

O confronto gerado pelas dificuldades ou limitações da criança não só quanto aos aspetos das aprendizagens formais da escola – e a matemática tem vindo a ser o meu foco! – mas também no que concerne às experiências de vida no geral e isso começa em casa!

Esta convicção emerge não só da minha prática profissional diária mas também a título particular e como mãe: digo desde já que não sou nada adepta do “não se deve contrariar a criança, devemos seguir as suas vontades”.

A minha filha de 5 anos, sempre muito menina, muito mimosa e um pouco ansiosa também, começou na dança criativa, muito a medo ainda, medo de ficar, medo de largar os pais. Mas foi fazendo um percurso muito lúdico pela dança que era o que lhe dava prazer, o brincar com o movimento, nada de sério.

Quando a irmã mais nova entrou também, tudo ficou super fácil, já ia com muito mais vontade, já sem medos, só entusiasmo e muitos folhos cor-de-rosa à mistura. Passado pouco tempo e o caminho esperado sendo o ballet, tentámos ver outras coisas. Para além da natação (para aprender a nadar) – opção nada fácil pois já iria sozinha, é preciso levantar cedo ao fim de semana e molhar-se, brrr – queríamos ver outras opções.

Resumindo, tanto na primeira situação como na segunda, todos os dias era preciso insistir e motivar. Alguns dias era uma guerra mas nunca nos passaria pela cabeça a nós pais desistir! É difícil, é preciso validar isso mas é bom para ela e iria começar a gostar. Por incrível que pareça, agora está no judo (!!!) com muito mais de metade do grupo de alunos sendo rapazes, já nada é cor-de-rosa. As primeiras vezes sim, foi necessário insistir mas agora é fantástico ver a alegria estampada no rosto cada vez que começa o treino!

Há, sem dúvida, que tirar o chapéu a muitos professores que são modelos de adulto, que sabem entusiasmar ao mesmo tempo que colocam limites – por acaso os exemplos que temos são homens (sempre achámos que deveria haver mais professores homens nos contextos educativos). Haverá também o fator idade, com a passagem do tempo – a dita maturidade ou amadurecimento de ordem mais biológica – mas e os pais o que podem fazer?

O que motiva aquela criança específica?

Acredito que o importante é, primeiro, perceber o que pode facilitar e entusiasmar a fazer coisas para continuar a explorar atividades e meios sociais. Saber fazer coisas e saber estar será sem dúvida o mais importante na idade pré-escolar.

Fazer, não ficar parado, deixar apenas o tempo de intervalo para a criança se aborrecer para depois se reorganizar e voltar a fazer, tomando iniciativa.

O que está criança específica precisa?

Em segundo lugar é também essencial perceber o que é que aquela criança precisa para continuar a se desenvolver e que atividades estão ao nosso alcance para desbloquear receios, incentivar esforços e começar a arriscar outros programas comportamentais. Não ficar só nas mesmas atitudes e rotinas!

Contrariar, isso sim, gera adaptação e flexibilidade – tão importantes para a vida! Só no confronto com os outros e com as nossas limitações podemos capacitar e gerar maior consciência. Consciência de si, dos outros e das oportunidades que a vida nos pode trazer. Afinal são-nos apenas concedidos 90 anos, isto se tivermos sorte!

Portanto, dentro do possível e respeitando os limites logistico-financeiros, os pais devem gerar oportunidades da criança se experimentar e expandir nas áreas mais diversas. Não só ao encontro das suas vontades e motivações mas também em função do que precisa para o seu potencial desenvolvimento.

Quanto a nós, pais, CRESCERMOS PAIS é saber dizer que NÃO sempre que for importante. Difícil – nesta era da informação e tecnologia tão pouco relacional – não é saber o que pode ser feito mas sim decidir o que fazer naquele momento específico. Perante tanta informação disponível na ponta dos dedos, o difícil é saber escolher. Convém, na maioria das vezes, escolhermos bem.

Ana Beatriz Saraiva

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