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Medicação para Hiperatividade: os prós e os contras

medicação para hiperatividade

Foto: Trey Gibson (Unsplash)

Trata-se de um tema polémico e que tem sido debatido por especialistas das mais diversas áreas.

Há muito que o tema é controverso e deixa os especialistas divididos. Será que a medicação prescrita às crianças com Hiperatividade é dada em excesso ou não?

Medicação para a hiperatividade

O tratamento para a hiperatividade pode consistir em diferentes modos de atuação. No entanto, o recurso principal para o tratamento deste transtorno passa pela medicação. Neste tipo de tratamento, podem ser encontrados medicamentos como “Concerta”, “Ritalina” e “Rubifen”, nos quais está presente a substância química metilfenidato. Este químico, segundo os folhetos informativos (as chamadas bulas), não é recomendado para crianças com menos de 6 anos, faixa etária em que se diagnosticam um grande número de casos de Perturbação da Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA).

Para que servem estes medicamentos?

Hugo Rodrigues, pediatra de profissão, desvenda qual a funcionalidade dos três medicamentos acima referidos:

“Têm como principal função alterar os níveis de alguns neurotransmissores cerebrais (pequenas partículas que servem para os neurónios comunicarem entre si). Servem, essencialmente, para ajudar a estimular a concentração e controlar a atividade motora excessiva – dois dos grandes problemas na PHDA. Devem ser utilizados quando há um diagnóstico desta Perturbação e sempre que for previsível que irão melhorar a funcionalidade e a qualidade de vida da criança/adolescente.”

Mas, serão estes medicamentos utilizados de forma “abusiva”?

A opinião dos clínicos da saúde infantil não é consensual, apesar de serem convergentes em alguns pontos.

Alexandra Barros, psicóloga clínica e psicoterapeuta, acredita que “a explicação passa pela hiperatividade da sociedade”.

Ou seja, “as crianças têm de aprender cada vez mais rápido e atingir expetativas muitas vezes desajustadas para a idade. Correm durante 12 horas desde que acordam até que se deitam, com agendas preenchidas com mil e uma atividades. Passam horas no jardim de infância e na escola, não têm tempo nem espaço para brincar, nem para estar com os pais, e depois é-lhes exigido que estejam sossegadas por períodos que, talvez nem os adultos são capazes de suportar, sem pausas, e a ter que assimilar conteúdos muitas vezes aborrecidos e desajustados”.

Continua, explicando que para além disso existem “educadores e professores que se confrontam com turmas demasiado grandes e metas surrealistas, fatores que não se coadunam com a diversidade e a energia normais da infância, muito menos com quadros problemáticos da saúde mental ou do neurodesenvolvimento”.

A psicoterapeuta explica que, a seu ver, a psicoterapia (outro tratamento para este transtorno) pode demorar a evidenciar os seus resultados e que tal “nem sempre é compatível com a exigência escolar”, potenciando assim, segundo a sua opinião, o imediato recurso à medicação. “Outro motivo [para esta intervenção medicamentosa em idades tão precoces] passa pelo facto dos serviços estarem sobrecarregados, obrigando a consultas de minutos em que não é possível fazer uma avaliação profunda”, correndo o risco de se fazer um diagnóstico errado.

Dá um exemplo: “Gostava ainda de aproveitar para acrescentar mais um fenómeno decorrente da sociedade hiperativa, que é a pressa para que os filhos entrem no 1.º ano de escolaridade ainda antes de completarem os 6 anos de idade. Há muitos casos de suposta PHDA que claramente são crianças que ainda deviam estar no jardim de infância”.

Já a pediatra do neurodesenvolvimento Mónica Pinto, quando questionada se achava que existia uma sobremedicação em crianças nestas idades, a especialista faz questão de referir que “se fizermos uma avaliação para os números de medicação em crianças abaixo dos 6 anos verifica-se que não é um valor significativo nem alarmante, como tem sido publicitado, de forma enganosa, na comunicação social”.

No entanto, confirma que em idade pré-escolar é recomendável tentar sempre outras abordagens [que não a medicamentosa]”. Sublinha, porém, que quando o défice de atenção prejudica de forma grave a aprendizagem pode ser necessário recorrer a medicação, se as outras estratégias e abordagens não resultarem.

A psicomotricista Ana Fonseca vai mais longe e chega mesmo a afirmar que esta “é uma realidade alarmante”. De acordo com a terapeuta, o uso de medicação em crianças tão pequenas “reflete que, na realidade, não estamos a deixar que as nossas crianças sejam crianças. Aquilo que devemos pensar não é o número de prescrições, mas antes o que origina este aumento de hiperatividade e falta de atenção”.

Chega mesmo a declarar que as restrições de número de alunos por turma e de tantas outras impostas pelo Ministério da Saúde, são uma espécie de “restrição que tira o tempo de exploração às crianças mais pequenas, sendo exatamente essa tal exploração a sua principal via de aprendizagem… Se tivermos tudo isto em conta, estamos mais uma vez a criar o ambiente ideal para mais quadros de hiperatividade e défice de atenção”.

Contrariamente às colegas de profissão, o pediatra Hugo Rodrigues contrapõe a ideia de que a utilização destes medicamentos em crianças é uma “realidade alarmante”:

“De momento não me parece propriamente um cenário preocupante, porque se trata de percentagem reduzida de casos, mas concordo que é algo que tem de ser repensado. O mais importante é garantir que as crianças sejam ‘funcionais’ [que se adaptem] nos diferentes contextos em que se inserem. Há exceções, mas que tem de ser mesmo isso, uma exceção.”

Efeitos Secundários da Medicação para Hiperatividade

Existem inúmeros efeitos secundários nas crianças pela utilização frequente destes medicamentos, considerados por alguns como “estupefacientes”, por serem derivados das anfetaminas. No entanto, e segundo adverte Hugo Rodrigues “é importante perceber que estamos a falar de medicamentos que estão sujeitos a controlos de qualidade muito apertados e que são administrados em doses controladas, pelo que se consegue vigiar a sua ação.

Alexandra Barros começa por dizer que não existe consenso relativamente aos efeitos colaterais do metilfenidato. Adianta, no entanto, que “a maior parte dos estudos científicos refere que, quando tomado corretamente, o metilfenidato é seguro, sendo os efeitos secundários e risco de dependência muito reduzidos e facilmente geridos”. Apesar de haver uma grande preocupação quanto à dependência que este químico possa acarretar, a especialista em psicoterapia explica que, tendo em conta que a maioria das crianças não fazem medicação durante as férias e durante o fim de semana, esse risco é praticamente inexistente.

Embora concorde que a primeira linha de intervenção não deva ser a medicamentosa, salvo raras exceções, faz questão de salientar que não devemos diabolizar a medicação. A medicação existe e deve ser usada quando realmente se justifica, uma vez que as crianças com a PHDA podem efetivamente beneficiar dela, sobretudo no que respeita ao rendimento académico”. Explica, dizendo que o problema está no diagnóstico apressado e desajustado “que coloca inúmeras crianças na prateleira da PHDA e que deviam ter outro tipo de intervenção, e não considerar a medicação como única resposta terapêutica”.

Mónica Pinto acrescenta que os efeitos secundários são transitórios e reversíveis. No que diz respeito aos efeitos a longo prazo, existe a probabilidade de se observar um “ligeiro impacto a nível da estatura final (entre 2 a 3 cm)”, o que segundo a especialista “pode não ser grave, quando comparado com os benefícios na aprendizagem”. Adverte, ainda assim, para a necessidade de ser “uma medicação controlada e vigiada pelo médico”, de forma a fazer os necessários ajustes, como em qualquer outro caso.

Já o pediatra Hugo Rodrigues acrescenta a este efeito secundário referido por Mónica Pinto, a diminuição do apetite e uma possível perturbação do sono.

“Vários pais relatam alterações ao nível do comportamento e da personalidade. Em casos menos comuns chegam a aparecer tiques faciais e por vezes gaguez“, adiciona Ana Fonseca à lista de efeitos colaterais.

A medicação pode ajudar nos problemas da atenção, memória e sobretudo autorregulação. No entanto, não são fórmulas milagrosas. Mesmo que os sintomas estejam mais controlados, é sempre necessário trabalhar algumas estratégias para que a criança ganhe as suas próprias ferramentas de adaptação. Caso contrário, assim que não tome a medicação irá deparar-se com os mesmos problemas, o que poderá ter um grande impacto na sua auto-estima, e aí sim, criar uma sensação de dependência”, finaliza.

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