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A criança autista

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O autismo é uma perturbação grave que aparece nos primeiros tempos de vida, afectando massivamente o desenvolvimento mental e emocional da criança pequena.

As crianças com autismo não estabelecem uma relação emocional “normal” com as outras pessoas, nem comunicam com elas de uma forma “normal”, não brincam normalmente e é frequente exibirem comportamentos e rituais repetitivos.

Há desde cedo sinais a denunciarem uma certa “estranheza” no comportamento e interacções da criança autista. Esta “estranheza” existe a par de um atraso generalizado a todas as áreas de desenvolvimento.

As crianças autistas parecem viver num mundo só delas, impenetrável e encapsulado, havendo uma falha na percepção do outro, dos seus sentimentos e motivações, não lhe sendo possível discernir ou intuir os diferentes estados emocionais do outro.

Num desenvolvimento que decorre com normalidade, a criança gradualmente desenvolve e aperfeiçoa as suas capacidades de interagir e comunicar com o outro.

As crianças conseguem imaginar, fingir, interpretar e reconhecer os sentimentos dos outros e detectar intenções, verbais e não verbais, dos outros. Elas sabem, por exemplo, quando alguém diz uma coisa e na verdade quer dizer outra. Elas vão descobrindo e percebendo o humor e a ironia.

Os seus actos adquirem intencionalidade. As crianças rapidamente vão percebendo que um determinado comportamento tem uma certa consequência e neste repetir e desenvolver de experiências, vão expandido o pensamento e sendo capazes de reconhecer o que é semelhante e diferente em cada uma das situações que experimentam, tornando-se emocionalmente literadas.

As crianças com autismo, pelo contrário, não desenvolveram um mundo interno em que a fantasia e o pensamento possam livremente interagir com os outros e onde novos pensamentos possam ser estimulados por novas experiências relacionais.

Esta tridimensionalidade do pensamento está comprometida na criança autista, sendo evidente a sua falta a maior parte do tempo. Contudo, existe um esboço desta tridimensionalidade do pensamento, só que é muito frágil e pouco sustentável podendo facilmente entrar em colapso.

Nos dias de hoje continua a existir uma grande controvérsia em torno do autismo, da sua descrição, de onde localizar a zona atingida, e acerca da própria natureza / causa.

Alguns autores preferem uma explicação cognitiva, ou seja, que as pessoas com autismo nasceram com uma falta de capacidade para perceber os estados de mente dos outros. Mas, estudos do desenvolvimento infantil levam autores, perspectiva na qual nos inserimos, como Hobson (1993) e Trevarthen et al. (1996) a olhar para o autismo como uma perturbação da intersubjectividade, como uma falta de sentido das outras pessoas.

Nas palavras de Anna Alvarez (1999) “…as an impairment of the normal sense of emotionally based curiosity about, and desire for, interpersonal relationships”, ou seja, há no autismo uma grave dificuldade do pensamento no qual se baseia a curiosidade de e o desejo de, conhecer o outro, o mundo, a vida.

Importa lembrar que o autismo é uma condição que se inicia na primeira infância, no entanto, a sintomatologia é fortemente exposta no desenvolvimento que vai sendo afectado em diferentes áreas de uma forma global, ficando gravemente comprometido, gerando-se um quadro de diversas complicações.

A ida ao psicólogo torna-se urgente quando os pais começam a sentir sérias dificuldades em entrar em contacto e comunicar com a criança.

Muitas vezes os pais contam-nos acerca dos seus esforços heróicos para comunicarem e relacionarem-se com a criança, outras vezes ouvimos também falar em ligeiras melhoras depois de os pais terem colocado a criança na terapia da fala ou num ensino especializado na escola.

Mas, é fundamental termos presente que o psicoterapeuta pode ter muita a oferecer a estas crianças, expandindo a possibilidade de trazer estas crianças para o contacto com os outros, para a relação, tirando-a aos poucos e poucos da sua “concha” onde vive e procurar com que ela ouse ir saindo mais vezes dessa “concha”, que é o seu mundo alienado dos outros e da vida.

E se é importante reconhecermos esta condição no autismo que é comum, também importa referir que existem diferenças entre cada criança e no facto dos estados autisticos terem flutuações de um momento para o outro dependendo da individualidade de cada um.

Sofia Figueiredo Rocha Vieira