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O pai e a mãe já não são namorados

separação

Como falar a um filho que os pais se vão separar?

Eduardo Sá é psicólogo clínico, psicanalista, professor e escritor – e uma voz poderosa na quebra de tantas ideias pré-concebidas sobre felicidade, famílias, educação e amor. Partilhamos um texto seu sobre a forma “menos dolorosa” de falar com um filho sobre separação. 


É possível falar a um filho duma separação sem dor?… Não, de todo. É possível que, depois de se falar com ele, esse sufoco se resolva depressa? Muito menos isso. E, depois disso, será necessário voltar a falar-lhe da separação algumas vezes? Sim; algumas mais. E há uma forma dos filhos não se revoltarem, não se deprimirem, nem sequer “constiparem” os resultados escolares? Também não.

Às vezes, perguntam-me se há uma fórmula “certa” para os pais transmitirem aos filhos que se vão separar. Regra geral, digo-lhes para eles terem muito cuidado com as “fórmulas certas”. Eu entendo que todos os pais queiram proteger os filhos de uma notícia dessas (e que queiram muito dizer aquilo que precisam de dizer de forma rápida, eficaz e, de preferência, “sem dor”). É bondoso que assim seja! Mas muito mais importante que uma “fórmula certa” será o pai e a mãe falarem “de coração aberto”. Com verdade e com afecto, por outras palavras.

Poderá perguntar-se: “E como havemos de saber se isso funciona?” No imediato, não se fica logo a saber; é verdade. Por mais que seja essa a angústia fundamental dos pais num momento como esse. Seja como for, esse momento ficará guardado pela vida fora. E é para esse longo escrutínio que conta muito a transparência dos pais. Nesse momento; e nos dias que se lhe seguem.

Por isso mesmo, ganha-se imenso que essa verdade seja contada às crianças por ambos os pais. (Os dois! Nunca um. E, muito menos, no registo semelhante ao de uma confidência que se faz entre um dos pais e os filhos, duma forma impulsiva ou com uma aragem com qualquer coisa de “vingativo”).

De preferência, a uma sexta-feira, imaginando uma semana normal. Porque as crianças dispõem de dois dias para reagirem com choque a essa dor. Com choque tanto pode querer dizer, num primeiro momento, manifestarem-se frias e indiferentes como, “no outro extremo”, reagirem num pranto e de forma desesperada. Seja uma ou outra a maneira como venham a reagir, os pais nunca ficam sossegados! Ou sentem a indiferença com imenso mal-estar (“mas será que não se passou nada?…”). Ou vivem uma hemorragia de dor dum filho passando-lhes pela cabeça recuarem na decisão que tomaram, para que tudo volte a ser como era dantes.

Ainda assim – voltemos às “fórmulas” – “O pai e a mãe já não são namorados” acaba por ser compreensível para a maioria das crianças. Por mais que elas não consigam pormenorizar o que é que isso significa. De qualquer modo, acredito que quando os pais têm uma conversa como essa – depois de andarem de hesitação em hesitação à procura da “janela de oportunidade” para que essa notícia não faça demasiados danos – já os filhos, há muito, e de forma intuitiva, perceberam o que é que se está a passar. Por mais que não haja discussões entre os pais!

Às vezes, questionam-nos acerca de um amigo com os pais divorciados, por exemplo, ou a propósito das duas casas pelas quais ele se divide. Às vezes, são mais subtis: tornam-se mais atentos e mais silenciosos em relação a todos os pequenos gestos trocados pelos pais. Ainda assim, havendo mais do que um filho, é natural que as crianças não reajam todas da mesma forma a uma notícia dessas. Habitualmente, um filho que reaja pior, num primeiro momento, será aquele que, a prazo, reagirá melhor à separação dos pais. Isto é, os filhos que parecem reagir, sobretudo, com indiferença são aqueles que, logo a seguir, se “desmoronam” mais facilmente.

Há alturas em que os pais entendem dever ser mais rigorosos na forma como falam aos filhos. Alguns, acham mesmo que têm o dever de lhes contar “toda a verdade” acerca da separação que a família está a viver. Uma ideia como essa não é nem prudente nem bondosa. Em primeiro lugar, porque “toda a verdade” traz embrulhados ressentimentos e rancores e, regra geral, a esperança de eleger um culpado por tudo aquilo que está a acontecer.

Por outras palavras, isso traz consigo uma “tentação de manipulação” que, com o tempo, acaba por ser duramente “taxada” pelos filhos. E, depois, porque quando um dos pais se coloca, hoje, no papel de vítima corre o risco de, amanhã, escorregar para o de vilão, empurrando os filhos para níveis de desamparo e de sofrimento que só os onera. Por outras palavras, as crianças não precisam de saber tudo sobre a separação dos pais. Basta que saibam que eles se vão separar.

E, por mais que aquilo que os separa se tenha tornado intransponível, é fundamental que saibam que continuam a ter dois pais atentos, bondosos e preocupados. Diferentes, como sempre terão sido. Mas unidos na intenção de, fazerem tudo aquilo que esteja ao seu alcance para serem bons pais, mesmo quando se sentem muito magoados (demasiado!) um com o outro.

Seja como for, a notícia da separação, sendo muito importante, conta bem menos que o que se lhe segue. E isso, sim, fará toda a diferença.

Se encontrar alguma incorreção contacte-nos por favor.

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