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O impacto da quarentena nos mais novos

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Muito se tem falado no impacto imediato e a longo prazo que esta quarentena nos tem causado, seja a nível das empresas, do trabalho de forma geral, das escolas, das famílias e claro está da saúde, entre muitos outros campos.

Mas e nas nossas crianças? Inês Sotto Mayor partilha a sua visão – ou a visão, em parte, das suas abobrinhas.


A reação imediata é que é péssimo, gera insegurança, medo, o isolamento traz irritabilidade, desinteresse, distanciamento do grupo de amigos, menos exercício físico… Mas das crianças e jovens que acompanho e que vou vivenciando pelos meus filhos e os seus amigos, é que basicamente a quarentena para eles é uma “seca”!

Claro que toda esta situação atinge os mais novos, mas o como, já depende em grande parte de nós adultos, é óbvio que esta nova realidade não é boa para ninguém, mas a forma como a encaramos a forma como decidimos vivê-la e como queremos que os nossos filhos a vivam está diretamente ligada à forma como nós pais, responsáveis ou cuidadores gerimos toda esta nova realidade.

Como reagem?

O que tenho assistido é que eles reagem de uma forma muito mais tranquila a tudo isto, muito mais do que nós adultos. A verdade é que para eles a utilização de vídeo chamadas, aulas on-line, não é novidade, talvez antes os pais não deixassem estar tanto tempo em frente aos écrans e por isso agora nem é mau de todo!

Para muitos o facto de estarem mais tempo com os pais e poderem fazer mais atividades até tem sido benéfico. Têm experimentado coisas que nunca tinham tentado, uns fazem bolos ou até o jantar, jogos diferentes de tabuleiro, aulas de ginástica em família ou até meditação. As possibilidades são imensas e a oferta também.

Claro que em algumas situações as crianças estão com medo que um parente, nomeadamente os avós, adoeça, ou sentem-se inseguros de sair à rua, surgem questões sobre a morte e os medos associados, e naturalmente têm saudades da família que não vive com eles, dos amigos e de brincar livremente. Ou crianças em que os pais são profissionais de saúde e vivem mais de perto o risco.

Tudo isto são realidades que acontecem em muitas casas, e nestas ainda é mais importante ajudar as crianças a perceber que sentimentos tudo isto gera, é importante fazê-los perceber que a única responsabilidade que devem ter é com as suas atitudes, ou seja o que podem eles fazer para se sentirem mais seguros, ou para terem atividades que gostam, o que depende apenas deles e que se fizerem pode melhorar a situação!

A forma de eles reagirem depende em grande parte da forma como os pais estão a reagir, eles vão-nos espelhar, modelar as nossas atitudes e aqui é fundamental estarmos atentos se o que dizemos é congruente com o que sentimos, eles pressentem quando não bate certo.

Como reagimos, nós?

É importante que os pais sejam claros e não escondam informação, não quero com isto dizer bombardear os nossos filhos com os problemas, nada disso, mas sim explicar, adequando à idade de cada um, o que se está a passar e como nós, pais nos sentimos perante isso.

A forma como esta situação atinge as crianças depende em grande parte da forma como deixamos que ela nos afete e principalmente como vamos lidar com ela.

Eu acredito que em todas as situações há algo de bom que podemos retirar, há um desafio para enfrentar e não existe maneira melhor de ensinar os nossos filhos se não pelo exemplo.

Sendo assim que exemplo queremos ser para eles nesta situação de quarentena, que marca queremos deixar, que marca queremos com que eles fiquem?

Podemos aproveitar esta situação para os ajudar a lidar com a frustração, a criarem resiliência, a serem criativos e encontrarem novas formas de fazer as coisas e coisas novas para fazer, intensificar a união da família e a sua capacidade de se auto regularem.

Por isso sim, esta pode ser uma excelente oportunidade para fortalecer os mais novos para o futuro, pode e deve ser encarado de forma a retirarmos o maior partido do que se está a viver.

Qualquer pessoa cresce e aprende mais com os erros com a adversidade. Para que todo este sacrífico não seja em vão vamos olhar para o que é preciso mudar.

E para o que cada um individualmente pode fazer, esse é um olhar que podemos ensinar os nossos filhos a ter, o olhar da responsabilidade perante como me quero sentir diante desta situação, da responsabilidade do que depende de mim para me sentir bem.

Para que as marcas de toda este panorama sejam o mais positivas possíveis e para que sirva para fortalecer para o futuro nós pais, podemos para além de dar o exemplo usar algumas estratégias simples:

Primeiro de tudo ajude as suas crianças a expressarem-se sobre o que sentem, sem minimizar, sem ridicularizar acolhendo e aceitando. Este momento pode ser mais difícil do que parece pois não estamos habituados a expressar os nossos sentimentos, normalmente isso é visto como uma fraqueza, mas é um passo fundamental para podermos agir na direção do que queremos.

Também nós pais estamos habituados a tentar resolver por eles, a dar-lhes uma solução de imediato, infelizmente esta situação não tem uma solução e muito menos imediata, vamos permitir que cada criança encontre a sua forma de lidar com o problema, que ela própria diga as estratégias que serão úteis.

Podemos fazê-lo estimulando a que eles encontrem dentro deles as respostas, ou seja perguntar em vez de afirmar:

  • Como é que te queres sentir?
  • O que podes fazer para te sentires dessa forma?
  • O que depende só de ti e que se fizesses iria fazer toda a diferença?
  • Que mais poderias propor?
  • Como vais organizar os teus estudos?
  • Como poderás ajudar nas tarefas da casa?
  • O que gostarias de fazer de diferente?

Ou seja quando perguntamos aos mais novos o como, primeiro de tudo estamos a passar uma mensagem, que não é expressa, mas é entendida por eles da seguinte forma:

“Eu acredito em ti e por isso te pergunto e peço a tua contribuição, em vez de mandar e dizer-te o que deves fazer”

Como tal estamos a estimular a autonomia, a criatividade, e quando permitimos que eles coloquem em ação o que propuseram isso gera compromisso, confiança e auto estima.

Perante as respostas dos mais novos, valorize, valorize, valorize, mesmo que não seja possível fazer, mas o facto de se expressar e contribuir já é um passo enorme e de verdade eles trazem soluções incríveis.

Sendo viável para toda a família, implemente a ideia do seu filho, quando são eles a dar a resposta o nível de compromisso e empenho é enorme, gera sentido de responsabilidade porque sentem que não podem desiludir, afinal de contas foram eles que propuseram. E sendo bem sucedidos a auto estima aumenta, assim como a confiança neles próprios e gera a ideia de que são capazes.

Esta estratégia é válida para tudo, para criar as novas rotinas, para os novos métodos de estudo, para estabelecer limites e perceber que os pais também tem de continuar a trabalhar apesar de estarem em casa, para as tarefas de casa, para as relações entre irmãos, e principalmente para aprenderem a lidar com problemas tão graves e inesperados como a situação atual.

Para que percebam que podem ter medo, podem estar assustados, podem até estar fartos e irritados de estar em casa, mas que só depende deles mudarem as suas atitudes para terem resultados diferentes para sentirem de maneira diferente, independentemente do contexto, independentemente da idade. Sim as crianças já tem capacidade de alcançarem as suas próprias soluções , só precisam que acreditem nelas!

Apoie os mais novos através do exemplo, através das suas atitudes, sem esconder, sem mentir, com sinceridade e assertividade e dê espaço para que também eles contribuam para o bem estar de toda a família.

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