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E quando as crianças perdem alguém?

E quando as criancas perdem alguém?

Se perder alguém é difícil para um adulto, para as crianças ainda é mais complicado racionalizar e entender a situação. Saiba como ajudar o seu filho a superar esta fase tão complicada, com a ajuda da Oficina de Psicologia

Perder alguém significativo é algo extremamente duro para qualquer pessoa. Lidar com a perda é doloroso, é difícil. Contudo, quando a perda se dá na infância, tudo se torna mais difícil de gerir.

E quando digo difícil, refiro-me não só às crianças, mas sobretudo aos adultos.

Estamos habituados a olhar para a infância como a fase da inocência, a fase em que os problemas e as dificuldades não existem, onde tudo é mais harmonioso e equilibrado.

O problema da perda na infância começa, antes de mais, na forma como nós adultos tendemos a olhar para as emoções difíceis na infância.

Como algo a ser evitado, impedido. E é aqui que surge o problema: porque as emoções, sejam elas quais forem…não se podem (nem se devem) evitar. Mas então não há nada que possamos fazer quando os nossos filhos perdem alguém? Claro que há!

Para isso, é importante ter em mente algumas ideias-chave:

  • Não há emoções negativas: algo negativo é algo que é nefasto, que nos faz mal. As emoções, por si só, não são negativas. Elas podem ser agradáveis ou desagradáveis mas nenhuma delas é negativa, porque cada uma delas (incluindo as mais desagradáveis) cumprem uma função específica no nosso organismo, contribuem para o nosso equilíbrio. Quando passamos pela perda de alguém significativo, sentir tristeza não é agradável…mas é saudável. É essencial para que consigamos o equilíbrio novamente.

  • As emoções são passageiras: as emoções são como as nuvens, chegam, permanecem algum tempo e depois desaparecem. 

  • Não diga “Não fiques triste”: em primeiro lugar, porque não vai resultar. Não evitará que a criança se sinta triste. Em segundo lugar, porque a criança irá apreender que não deve sentir o que está a sentir e que, portanto, deve reprimir essa emoção. E acredite que, pior do que sentir tristeza, é senti-la e, não só não poder expressá-la, como forçar uma emoção contrária que não está genuinamente presente naquele momento.

  • Não evite falar sobre o assunto: de forma a poupar as crianças a sofrerem, tendemos a evitar falar do acontecimento e da pessoa que partiu. Esta atitude só promove o resultado contrário. É a falar sobre o assunto e a sentir que os outros estão disponíveis para a ouvir, que a criança se sente amparada e apoiada.

  • Ajude a criança a exprimir o que pensa e sente: se a criança abordar o assunto ou procurar falar sobre isso, não responda de forma evasiva. Mostre-se genuinamente disponível, ajude-a a expressar o que está a pensar e a sentir sobre o que acontece. Isto fará com que o desconforto diminua, porque fará com que a criança sinta que tem um espaço onde pode ventilar as emoções mais desconfortáveis, sem reservas.

  • Não diga “Não chores”: se a criança tiver vontade de chorar, deixe-a chorar. Não faça nada para o impedir nem fique aflito quanto à forma como deve lidar com a situação. O choro é apenas uma reação fisiológica da tristeza que está presente naquele momento. E não é prejudicial. Bem pelo contrário, é curativo. Basta que esteja lá, que abrace a criança, permanecer em silêncio se ela não quiser falar e estar lá com ela. 

Contudo, é importante estar atenta/o a esta fase particularmente difícil da vida da criança e aos sintomas que esta vai manifestando. Se por um lado emoções como a tristeza são adaptativas, quando esta permanece durante um longo período de tempo, ou se vai manifestando na forma de comportamentos mais agressivos de raiva e revolta, estamos perante indicadores que merecem atenção clínica e que podem ser sinal de um quadro depressivo, por exemplo.

Por essa razão, se os sintomas perdurarem durante um longo período de tempo e surgirem dificuldades ou comportamentos que sejam preocupantes, é importante procurar apoio psicológico

Lembre-se que o que a criança mais precisa em momentos de tristeza muito intensa é de conexão: precisa de sentir que tem em si alguém a quem pode recorrer para experienciar o que está a sentir sem reprimir nada.

O segredo passa por olhar para as emoções mais desagradáveis, da mesma forma como olhamos para as emoções agradáveis: com abertura, aceitação e disponibilidade. Tudo isto, aliado ao afeto, fará com que os momentos menos bons, apesar de difíceis…sejam suportáveis e sobretudo oportunidades para estar mais em contacto com aqueles que ama.

 

Sandra Azevedo – Psicóloga Clínica – Equipa Mindkiddo

Oficina de Psicologia