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Crianças Transgénero: o que precisamos de saber?

Trans-quê? Reunimos conceitos, dicas e recursos úteis sobre a identidade de género e o apoio às crianças trans. Vamos aprender?

Nem todos nos identificamos com o género que nos é atribuído à nascença, e muitas vezes este questionamento começa muito cedo, durante a infância.

O que devemos saber, enquanto pais, para agir da melhor forma quando o João, de 7 anos, quer usar vestidos ou quando a Maria, de 14 anos, quer que passemos a chamar-lhe Miguel?

Reunimos alguns conceitos, dicas e recursos importantes não só para famílias que se identifiquem com a realidade das crianças transgénero, mas também para todas as outras – porque este é um tema de todos e porque todos devemos estar informados e sensibilizados para acolher e apoiar.

Conceitos essenciais

Existem muitos conceitos relevantes para este tema. Neste artigo, optámos por descrever apenas alguns. Se quiserem conhecer mais, recomendamos que consultem este glossário da autoria do Bloco de Esquerda. Vamos então aprender os básicos dos básicos?

Género

A melhor forma de compreender o género é pensando nele como um espectro. Existe o maculino, existe o feminino, mas existem imensas outras possibilidades pelo meio, e diferentes pessoas encaixam-se em diferentes zonas do espectro, conforme aquilo que sentem que é a sua identidade.

Então o género não tem nada a ver com os orgãos genitais com que nascemos? Precisamente – o género é definido pelo nosso cérebro, e existem relatos científicos que o comprovam.

Sexo

O sexo, sim, tem tudo a ver com os nossos orgãos genitais. É biológico – uma criança pode nascer com orgãos femininos, masculinos ou até mesmo com ambos (intersexo). O sexo não define nem limita a identidade de género: uma criança que nasce com orgãos femininos pode identificar-se como um menino, por exemplo.

Género Não Binário

Estamos habituados a que existam homens e mulheres. Então e quem não se sente nem uma coisa nem outra? O género não binário diz respeito a quem não se identifica nem como homem, nem como mulher. Existe também o “genderqueer”, referente a quem não aceita as expectativas de ter de se encaixar apenas num dos dois géneros tradicionais.

Identidade de género

É o género a que sentimos que pertencemos. Como referimos, pode ser masculino, feminino, não-binário, etc.

Expressão de género

As coisas que fazemos para expressar o nosso género – usar saias, deixar crescer a barba, pintar as unhas, etc – são a nossa expressão de género. Quando dizemos ao Manuel que não pode maquilhar-se porque isso é coisa de menina, estamos a cortar a sua expressão de género, a forma que ele tem de expressar que se identifica com o género feminino.

Não estamos, de forma alguma, a moldar a sua identidade de género – se for esse o caso, ele vai continuar a sentir-se mais como uma menina, no seu íntimo, embora não possa expressá-lo. Esta limitação tem efeitos psicológicos e físicos prejudiciais para a saúde da criança, pelo que a expressão de género deve ser encorajada de forma livre e sem tabus.

Os vários trans

Geralmente, a palavra trans é acompanhada por um asterisco (trans*) para abranger todas as variantes. Inclui identidades de género como género fluído, genderqueer, bigénero ou agénero. Saibam mais aqui.

Será que a minha criança é transgénero?

De acordo com a investigadora Diane Ehrensaft, todas as crianças passam por uma fase de descoberta. Faz parte do crescimento que o João tenha curiosidade em pintar as unhas e usar saias e que a Maria queira usar o cabelo curtinho e brincar às lutas, e não significa necessariamente que estas crianças se identifiquem com um género diferente do que lhes foi atribuído à nascença. Afinal, a associação destes comportamentos a um género específico é uma construção social, e é apenas natural que as crianças sintam vontade de explorar. 

Quando estes processos são mais prolongados, no entanto, durante meses ou mesmo anos, é provável que estejamos a falar de uma abobrinha transgénero. Os sinais podem aparecer a qualquer altura, mas o mais comum é que surjam na altura da puberdade, com as transformações do corpo.

Uma menina que se identifique como um menino, por exemplo, pode ficar extremamente frustrada com o crescimento do peito, ou mesmo esperar que lhe cresça uma pilinha – são expectativas que fazem ou não sentido de acordo com a sua identidade de género. Estamos perante uma criança transgénero quando a sensação ultrapassa os receios comuns da adolescência e se transforma em “eu não quero ter este corpo, este corpo não me faz sentido, eu não sou uma menina”. Nestes casos, pode ser útil procurar apoio.

Mas atenção: não existem caixas fechadas. Existem, por exemplo, homens que se identificam como homens e gostam de usar saias – cada caso é um caso e não devemos nunca assumir o género de alguém.

Como promover o crescimento saudável?

Falemos de crianças transgénero ou cisgénero, as bases para um desenvolvimento saudável assentam nos mesmos valores: o amor, o respeito e a compreensão.

Não é fácil guiarmos os nossos filhos quando a realidade deles é uma que desconhecemos, com alegrias, angústias e desafios pelos quais nunca tivemos de passar.

Dar liberdade para descobrir

Deixem-nos explorar e ofereçam-lhes ferramentas para tal. Sem pressas, sem pressões. Esta coisa de descobrirmos quem somos leva tempo.

Oferecer apoio sem julgamentos

Enquanto pais, familiares ou mesmo amigos, temos um papel importante nesta viagem. Sermos aliados traduz-se não apenas no apoio das nossas crianças, mas no apoio de todas as pessoas transgénero e da comunidade LGBT+, que são uma parte importante da nossa sociedade.

Procurar apoio externo e profissional

Se não compreendemos, se não sabemos o que se passa ou se não conseguimos apoiar a criança, podemos sempre procurar ajuda de quem sabe mais. Espreitem a secção de recursos abaixo, onde vão encontrar vários recursos e contactos que poderão ajudar.

Dar-lhes tempo e amor incondicional

Estejam lá sempre que eles precisarem, com palavras amigas e vontade de compreender, mas sem pressões. Mostrem-lhes que não estão sós nesta viagem, e que quando precisarem podem contar convosco. Este não é um processo nada fácil e, dependendo de cada pessoa, das suas possibilidades e do contexto em que está inserida, pode levar a complicações psicológicas graves. Estejam atentos.

Respeitar a identidade deles

Respeitar uma pessoa transgénero passa, além do comum, por usar os pronomes com que se identificam e por acolher o nome que escolhem, mas também por tentar compreender aquilo que é importante para eles. Não há vergonha em perguntar-lhes como podemos fazer melhor para que se sintam bem – afinal, é assim que aprendemos. 

Recursos úteis

Deixamos alguns recursos e sites úteis para quem quer saber mais sobre estas questões. Se tiverem mais recomendações, não hesitem em deixar um comentário abaixo!

Transhood

Um documentário de 2020 que segue a história de 4 crianças e das suas famílias ao longo de 5 anos. Nele, ficamos a saber mais sobre a fluidez de género, a forma como as crianças a vivem e o modo como ela se encaixa na dinâmica familiar.

O documentário Transhood está disponível na plataforma de streaming da HBO.

T Guys Cuddle Too

Foto: Facebook T Guys Cuddle Too

O Ary e o Isaac são duas pessoas trans portuguesas que têm como missão informar, educar e ajudar para que a questão da identidade de género seja melhor compreendida. Atuam de diversas formas, nomeadamente através de sessões de acompanhamento e esclarecimento e de workshops e palestras em escolas.

Com uma linguagem acessível e descontraída, pautada pela empatia e pelo sentido de humor, descomplicam alguns dos temas mais relevantes para a comunidade trans. Da desconstrução de preconceitos à dismorfia e das intervenções cirúrgicas às dúvidas mais comuns, os dois amigos têm muito para ensinar a miúdos e graúdos, independentemente de se integrarem ou não na comunidade trans.

Podem acompanhar o trabalho dos T Guys Cuddle Too no site, no canal de YouTube, no Instagram e no Facebook da dupla.

Gender Born, Gender Made

Um livro da especialista Diane Ehrensaft que é um autêntico guia para criar crianças que não se encaixam dentro das caixas binárias do género. A autora trabalha com crianças transgénero há várias décadas, e no livro usa as suas experiências em primeira mão para explicar como elas podem sentir estas questões de forma muito diferente e em idades super variadas.

Deixamos o link para a Amazon, não encontrámos nenhuma versão em Português.

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