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Ansiedade de Separação Infantil – Ter medos é normal?

Ansiedade Separacão Infantil - Ter medos é normal?

Ansiedade de Separação Infantil – Ter medos é normal?


“Agora, tudo acabou. A praia já está deserta.

Estás deitado, dormes e sonhas.

Fazes-te à água, começas a nadar. Afastas-te, é só mar, água. Nadas mais.

Olhas à volta e estás sozinho. Queres regressar mas não consegues.

Chamas e não te ouvem. Tens medo porque não vês ninguém, só mar às vezes, e Céu, nas outras.

Não queres afogar-te, estás a boiar. Dura muito.

Então sabes que alguém há-de vir a caminho e descansas. Dormes em paz, outra vez”.

(Strecht, 2002)

 

Introdução:

O medo e a ansiedade fazem parte do desenvolvimento. Tal como afirma Bowlby, a Ansiedade de Separação (AS) é uma sequência normal do desenvolvimento da criança, uma necessidade vital para o ser humano.

Mas então, o que sentem as crianças com Ansiedade de Separação?

O que separa o normal do patológico?

Que atividades e estratégias poderão ser implementadas?

As crianças que têm Ansiedade de Separação sentem-se sozinhas na ausência das suas Figuras de Referência (FR). Podem estar no meio de uma multidão, mas se as FR não estiverem presentes, olham à volta e não veem ninguém, sentem-se sozinhas, perdidas num mar imenso. Mas então, o que é que isto significa? Significa que é preciso que a criança tenha a representação mental dos seus pais, que os consiga imaginar, sentir a sua presença, quando eles, por alguma razão, têm de se ausentar fisicamente. Mas, para que a criança adquira esta representação mental, é preciso que os laços afetivos, o apego que vai construindo (a sua vinculação) seja feito de uma forma segura, utilizando as FR (principalmente a mãe) como base segura a partir da qual exploram o meio. Tal como afirma Mary Ainsworth, nos momentos de separação, as crianças demonstram sinais da falta da mãe. Nos momentos de reunião, saúdam ativamente a mãe com um sorriso, uma vocalização ou com gestos. Se perturbadas, sinalizam ou procuram contacto com a mãe. Uma vez reconfortadas, regressam à exploração.

 

Desenvolvimento:

A ansiedade, bem como o medo são emoções básicas do ser humano, que fazem parte da adaptação e conservação da espécie, podendo surgir em determinadas situações, como forma de proteção. A criança, ao longo do seu desenvolvimento, na exploração do mundo que a rodeia, vai experienciando medos comuns para cada etapa de vida:

– Até aos 2 anos de idade: medo da separação/afastamento, medo de estranhos, medo de novos estímulos, medo das alturas;

– 2/3 anos de idade; medo do escuro e de animais;

– 5/6 anos de idade: medo de pessoas consideradas pela criança como «más», medo de quedas/dores, medo de dormir sozinho;

– 7/8/9 anos de idade: medo dos assaltos, catástrofes, acidentes, medo da morte, medo da aparência física, medo da aceitação social (Medos normativos: Cynthia G. Last). À medida que a criança cresce, estes medos vão desaparecendo de uma forma natural e espontânea. A simples presença do medo de separar-se da mãe, pai ou qualquer outra figura de forte ligação afetiva não é necessariamente sinal de patologia emocional, pelo contrário, faz parte do desenvolvimento infantil. No entanto, a Ansiedade de Separação só se torna numa perturbação quando as reações de medo e de ansiedade perante a separação de uma das figuras de forte ligação ou perspetiva de separação da mesma, passam a comprometer a adaptação e o desenvolvimento infantil, em função do estádio em que se encontra. Isto significa, que nos devemos preocupar quando a criança tiver medos que ultrapassam os períodos ditos normativos; quando são persistentes e excessivos; quando os sintomas provocam mal-estar considerável à criança/família; quando estas manifestações interferem com a sua capacidade de desempenho ou envolvimento em contextos/tarefas que a criança evita ou enfrenta com muito sofrimento; quando algumas queixas se mantêm, sem a existência de uma causa médica.

 

O que é então a Perturbação da Ansiedade de Separação (PAS)?

Segundo Houzel, D., Emmanuelli, M. & Moggio, F. (2004), a PAS é mais frequente nas crianças pré-pubertárias. A sua prevalência é de 1 a 5%, com um pico de incidência por volta dos 11 anos, à entrada para o 6ª ano.

Esta perturbação caracteriza-se essencialmente pelo medo e angústia excessiva e intensa perante a separação ou a ideia de separação das FR, podendo traduzir-se em dificuldades em adormecer (pesadelos), medo de ficar sozinha, dificuldades de interação social e recusa em ir à escola. São crianças que estão constantemente e excessivamente a necessitar de atenção.

O diagnóstico para esta perturbação deve ser efetuado de forma precoce, com a finalidade de realizar uma avaliação e intervenção adequadas, proporcionando objetivos específicos, bem como atividades e estratégias a implementar, a fim de proporcionar um desenvolvimento harmonioso nos seus diversos contextos.

 

Atividades Sugeridas:

As atividades que podem ser realizadas com as crianças que possuem Ansiedade de Separação devem ser atividades dinâmicas que conduzam a uma maior autoestima e autoconfiança naquilo que fazem e no que são capazes de alcançar. A maximização das competências pelo reforço do «EU» ocorre essencialmente através da utilização de atividades criativas e expressivas, bem como de outras atividades que devem ser realizadas, no sentido de melhorar o desenvolvimento da criança e da relação pais-filho.

Atividades Expressivas: dramatização, mímicas, música e dança;

Atividades de Educação Gestual e Postural: eqilíbrio;

Atividades Lúdicas: jogos de regras, jogos de cooperação/oposição, jogos de construção, jogo simbólico;

Atividades de Relaxação e de Consciencialização Corporal: Massagem infantil, Método de Jacobson.

 

Estratégias de Atuação:

Construir um espaço seguro, agradável e acolhedor, que deverá ser o quarto da criança;

Ter uma disponibilidade afetiva e corporal para a criança;

Proporcionar à criança objetos, que lhe transmitam segurança (objetos transitivos), como é o caso da chucha, da fralda e do peluche, para que tenha a representação mental das suas Figuras de Referência, na sua ausência física;

Consciencializá-la da presença, do espaço e do tempo do outro;

Respeitar o seu tempo e o seu espaço, para se poder expressar livremente;

Coresponsabilizá-la na criação e manutenção de regras das atividades;

Utilizar constantemente o reforço positivo e interrogativo, para que a criança desenvolva a consciencialização das suas ações, aumentando a sua autoestima e autoconfiança, através da sua valorização pessoal;

Dar significado às expressões/emoções, com respostas e ações que proporcionem segurança, conforto e contenção;

Estimular a sua capacidade de iniciativa e atitude crítica, através de elogios, propostas de atividades e perguntas que promovam o seu diálogo;

Promover a sua autonomia, perante a escolha de atividades e a tomada de decisões de um brinquedo em prol de outro, ou de soluções para resolver um determinado conflito;

Aumentar o seu sentimento de segurança e autoconfiança, motivando-a nos seus interesses e proporcionando-lhe atividades que lhe dão prazer e onde tem um bom desempenho, intercalando com atividades em que tem mais dificuldades, mostrando-lhe que também é capaz de as realizar;

Promover a socialização com os pares.

 

Recorde-se que:

Todos nós podemos ter medos, mas a duração, a intensidade e a frequência com que ocorrem é que determinam se é uma perturbação e, se assim for, será necessária a ocorrência de uma intervenção técnica especializada. Esta intervenção deve implicar a participação da família, de um ou mais técnicos: psicólogos, psicomotricistas, fisioterapeutas, terapeutas da fala, terapeutas ocupacionais, dos educadores e das pessoas que cuidam diretamente da criança, devendo estar todos envolvidos desde o início do processo. A partilha de conhecimentos e um sistema de comunicação eficaz entre todos estes elementos são essenciais para que os objetivos terapêuticos sejam atingidos. Deste modo, ao adotar medidas de diagnóstico, avaliação e tratamento, minimizam-se as consequências características desta perturbação e, consequentemente proporciona-se uma melhor qualidade de vida.

 

Referências Bibliográficas:

Golse, B. (2002). Do Corpo ao Pensamento (1ª Edição ed.). Lisboa: Climepsi Editores.

Houzel, D., Emmanuelli, M., Moggio, F. (2004). Dicionário de Psicopatologia da Criança e do Adolescente. Lisboa: Climepsi Editores.

Last, C., (2009). S.O.S Crianças – Como o seu filho pode vencer a ansiedade e o medo. Casa das Letras.

Strecht, P. (2002). Crescer Vazio – Repercussões psíquicas do abandono, negligência e maus-tratos em crianças e adolescentes. Lisboa: Assírio & Alvim.

 

Lúcia Garcia

Técnica Superior de Reabilitação Psicomotora

Técnica Cócegas nos Pés

Site: Cócegas nos Pés

Email: geral@cocegasnospes.com

Tel: 93 425 73 56

Artigo da Cócegas nos Pés pela Dra. Lúcia Garcia, para a Revista Coisas de Criança.