Dia do Pai: o que fazer quando o pai não está? - Pumpkin.pt

Dia do Pai: o que fazer quando o pai não está?

Dia do Pai: Quando o pai não está

Neste dia, é-nos vendida a narrativa de que todas as crianças têm um pai que o é 365 dias por ano. Como fazer a gestão emocional das crianças que pertencem a famílias nas quais, por algum motivo, o pai “não existe”?

A comemoração do Dia do Pai, além da exploração de matérias como as da família tradicional, são realidades muito acentuadas na escola. A chegada do 19 de março é antecipada com a preparação de miminhos e também as lojas se recheiam de todo o tipo de gadgets e outros presentes a pensar no Dia do Pai.

Por isso, é muito comum nesta época do ano destacar-se e exaltar-se o papel do pai – que, na maior parte das vezes, está “apenas” a… ser pai – e esquecermo-nos de que existem muitas crianças a crescer com realidades familiares não normativas. Ou porque o pai, por por algum motivo (falecimento, abandono afetivo, afastamento geográfico), não está presente, ou porque o pai é, na verdade, “outra” mãe.

O que fazer, nestas situações, para gerir o lado emocional da criança e garantir que a data não afecta o seu desenvolvimento social?

O Dia do Pai nas famílias não-normativas

Nas famílias não-normativas, o Dia do Pai pode ser fonte de tormento, principalmente porque é impossível isolar a criança e alheá-la da celebração que se aproxima.

A verdade é que a ideia da família “típica” está a desaparecer. Existem agora várias formas de ser família.

Afinal, o que é ser pai? É contribuir para dar vida, mas também é ajudar a crescer, a desenvolver-se, a dar pontapés na bola, a atar atacadores, a levar à escola, a dar banho, a sorrir mesmo perante adversidades, a ler antes de dormir.

Falámos com alguns especialistas para dar resposta às dúvidas e ansiedades mais comuns.

Convidaram todos os pais a ir à escola. E agora?

No Dia do Pai é habitual os pais serem chamados à escola para participar em algumas atividades.

Como reforça a terapeuta Ana Beatriz Saraiva, “todos nós em diversos momentos das nossas vidas tivemos figuras que nos marcaram pela sua força e que são exemplos de resiliência, pela persistência e pelo alento que nos trouxeram em dados momentos”.

Não deixando de realçar da figura masculina e o seu papel no desenvolvimento da criança, podemos recorrer a familiar ou amigo que seja importante para a criança e que, não sendo nunca o pai “biológico”, pode em dados momentos representar uma figura de referência. Um avô, um tio, um padrasto – sempre sublinhando as diferenças, mas exaltando as presenças.

Inês Afonso Marques, Psicóloga Clínica e responsável pela Direção da área infantojuvenil da Oficina de Psicologia, sublinha que informar a escola é um passo relevante para que os professores enquadrem a situação e possam estar atentos às manifestações emocionais e comportamentais da criança. Assim, podem adequar as atividades e o discurso em relação ao Dia do Pai com a sensibilidade que a situação de todas as crianças requer.

Quem é que vai querer receber um coração de papel e um beijinho?

Todos os que fazem realmente parte da vida da abobrinha! Estes dias devem ser celebrados tendo como base o amor: e o amor assume, felizmente, tantas formas.

Conversem com os professores para que seja proposta à criança uma atividade alusiva sim ao Dia do Pai, para que não aconteça um acentuar das diferenças, mas oferecendo-lhe ao mesmo tempo liberdade criativa para o seu desenrolar.

Dependendo da idade e do à vontade de cada abobrinha, cuja palavra deve ser a final, a criança pode optar por fazer o presente para outro adulto – aquele de que já falámos acima ou até mesmo a mãe -, escrever uma reflexão sobre o tema, dedicar uma carta ao pai ausente (que sirva depois para entabular o assunto com algum profissional, por exemplo) ou, simplesmente, não fazer nenhum trabalho temático.

Como explicar a ausência?

Depende da ausência. A verdade é que estes dias especiais não deixam de ser uma oportunidade muito rica para o adulto de referência trabalhar o pensar e o sentir da criança sobre as suas vivências.

Ao mesmo tempo, é uma oportunidade também para a capacidade do adulto ser potenciada, desenvolvendo-se ferramentas para que saiba melhor lidar com esta realidade: a sua e a da abobrinha.

Devemos partir sempre do ponto de vista da criança, do que ela já sabe sobre o assunto, para então perceber se existe alguma pergunta que ela nos queira fazer sobre este tema tão central e, por isso, tão criador de identidade, tão fundamental e tão assustador.

Há crianças que nunca conheceram o pai, outras que com ele conviveram durante um curto espaço de tempo, algumas que têm ainda que lidar com idas e vindas constantes – uma espécie de pai iô-iô que está presente apenas quando lhe convém.

As respostas a estas diferentes situações não são obviamente as mesmas. No entanto, em todas elas fará sentido trabalhar a confiança e o autoconhecimento da criança. Acima de tudo, dar-lhe mecanismos e ferramentas que a façam entender que não existe responsabilidade sua no afastamento do adulto.

Ao mesmo tempo, é natural que a culpa infantil exista, a confusão também. Ana Beatriz Saraiva parte destas questões fundamentais para sublinhar:

“Precisamos de validar o que a criança sente, marcando uma presença consistente e segura na relação de cumplicidade vivida em família. Muitas vezes basta estar, aqui e agora, presente, escutar, dar a mão, um abraço. E aceitar o que não podemos mudar, estando certos que podemos sempre procurar alternativas e decidir fazer o nosso melhor perante um contexto tão difícil. Sermos melhores por comparação a nós próprios e não a outros”.

Ou seja, mostrar todos os dias a criança que ela é merecedora de amor e que existem muitas pessoas que gostam dela.

Como explicar e trabalhar a morte de um pai?

Inês Afonso Marques já nos ajudou a perceber como podemos falar sobre o luto e tratar a morte junto dos mais novos, o que faz ainda mais sentido recuperar quando pensamos na partida precoce de um pai.

Há quem prefira evitar o assunto, optando por não concretizar a notícia da morte, mais como forma de evitar que a criança sofra. Contudo, a ausência de informação pode fomentar pensamentos, imagens ou fantasias irreais acerca da situação, que podem ter repercussões futuras negativas.

Por esse motivo, usem o bom senso e, mesmo que seja doloroso também para vós, procurem encontrar um equilíbrio que permita dar resposta às necessidades da criança.

No Dia do Pai, será importante ajudar a abobrinha a compreender que, mesmo sentindo a perda, não há nenhum mal em continuar a divertir-se com os seus amigos, em fazer desporto ou em manter as suas rotinas.

Por exemplo, dizendo algo como «eu sei que este dia está a provocar muito sofrimento e dor, muitas memórias, mas acredita que é possível seguir em frente e superar esta perda».


Em jeito de conclusão, realçamos dois pontos levantados por Inês Afonso Marques que são válidos independentemente do motivo pelo qual o pai não está presente.

  • Permitam que a criança tenha a liberdade de escolher a forma como quer assinalar o dia (sendo permitido não querer fazer nada alusivo ao dia);
  • Sendo um tema potencialmente difícil é essencial que as figuras de referência estejam disponíveis para a criança, para as manifestações emocionais que surjam (todas elas válidas), como tristeza, vergonha, zanga, desilusão, medo, culpa. Ao mesmo tempo, é também essencial conseguir responder com disponibilidade e sensibilidade a perguntas que possam (re)surgir neste período.

Ah! E quando o pai está… mas não tanto?

Recuperamos por fim as palavras de Inês Marques, dirigidas em particular a mães superprotetoras que, sem intenção e sem se darem conta, não permitem que os pais sejam pais e participem ativamente na vida dos filhos. 

Na origem da superproteção costuma estar algo de muito nobre: um amor incomensurável pelos filhos e o desejo de lhes proporcionar o melhor. E o que alimenta a superproteção? 

Habitualmente receios: medo de que se magoem, medo de que sejam rejeitados, medo de que não tenham acesso às melhores oportunidades, medo de que outros cuidadores façam de uma forma diferente da sua, medo de deixar outras pessoas assumirem o controlo… E como se procuram dominar estes medos?

Habitualmente, com controlo aumentado. Controlo sustentado na crença de que “só eu serei capaz de cuidar de forma verdadeiramente adequada do meu filho”.

Neste enquadramento, níveis elevados de controlo, podem levar a que o pai vá progressivamente sendo afastado da equação, com tudo o que de potencialmente nefasto isso possa acarretar, nomeadamente na satisfação em relação à parentalidade e na relação entre pai e filho…

  • Ele não sabe escolher a roupa para o nosso filho.”
  • “Ele não sabe como é que ele gosta de adormecer.”
  • “Ele brinca de uma forma tão diferente da minha.”
  • “Ele não dá banho da mesma maneira que eu.”
  • “Ele não percebe que tem de haver uma hora para tudo.”

Os momentos de desacordo poderão surgir (irão surgir!), pelo que procurem conversar sobre as divergências longe da criança. Se acabar por acontecer a frustração pelo desacordo surgir à frente da criança, recordem que são modelos e resolvam os impasses de forma positiva, respeitadora e cooperativa.

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