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O nosso filho e a comida… Os pais à beira de um ataque de nervos!

O nosso filho comida

Os pais ficam muitas vezes à beira de um ataque de nervos quando os filhos não comem como eles querem. A Dr. Catarina Rodrigues do Consultório de Psicologia desmistifica e dá a sua opinião.

A partir dos 12 meses, a hora da alimentação ganha lugar de destaque na relação, e por vezes não pelos melhores motivos.

O facto de antes o bebé ter mamado bem não serve de prognóstico positivo para a mudança para os alimentos sólidos.

De facto, em situações de desenvolvimento saudável, na análise desta questão, não é a alimentação que está no cerne, mas a idade da criança, melhor dizendo, o crescimento da sua noção de competência e de autonomia.

Quando falamos de alimentação, de sono, de deixar as fraldas, estamos sobretudo a falar da formação da identidade da criança e da aquisição da sua noção de competência e de autonomia.

Crescer é sobretudo saber exprimir a sua vontade! Esta é uma aprendizagem que tenho feito com as crianças com quem lido.

No outro dia, assisti ao momento de refeição de uma família. O bebé tem agora 18 meses e, segundo palavras dos pais, está terrível para comer. No infantário come bem, mas em casa não quer comer aquilo que os pais lhe dão. Prefere a fruta e o tomate.

Os pais desesperam e, entre brincadeiras, vídeos dos desenhos preferidos, procuram que o seu filho coma mais qualquer coisa.

Sei que é nestes momentos que muitas mães e pais se enervam e perdem a paciência. A minha posição não é ortodoxa neste âmbito. Talvez o facto de ainda hoje me recordar das guerras que a minha mãe tinha comigo em relação à comida e do modo como o meu pai me deixava brincar com a comida e comer só o que tinha vontade, me tenham feito ver este assunto de um modo diferente.

Tenho a certeza de que, numa relação e num desenvolvimento saudável, quando a criança tem fome come, e que não morre de fome, como muitos pais chegam a pensar.

Crescer é uma descoberta constante de novas competências, que se consolidam treinando com aqueles que são mais significativos, nomeadamente as figuras parentais.

Somos seres de vontade e de desejo.

Gostamos mais de umas coisas e menos de outras. Isso acontece quando temos 18 meses, 38 anos ou 78 anos.

Mas, quando se trata do bebé parece que as regras de compreensão do comportamento deveriam necessariamente mudar para uma ausência do querer próprio, como se o bebé fosse uma tábua rasa onde os pais vão inscrevendo todas as aprendizagens do mundo, para que depois o bebé possa escolher.

Porém, não existe tal coisa como tábua rasa. Quando olhamos para um bebé ou para uma criança, não nos podemos esquecer que estamos a olhar para um ser em devir!

Ou seja, para um ser que está a crescer e a transformar-se constantemente até chegar a adulto (e mesmo aí a mudança não termina). Vida é mudança!

 

Catarina Rodrigues

Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta