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Ana Bacalhau: “Não é uma questão de fé, é científico – a música é fundamental na educação das crianças”

Ana Bacalhau - canções de roda, lengalengas e outras que tais

A artista dá voz, juntamente com Sérgio Godinho, Vitorino e Jorge Benvinda, ao álbum "Canções de Roda, Lenga Lengas e Outras que Tais", o álbum que nos fará regressar à nossa infância.

Ana Bacalhau tem voz.

Esta verdade é óbvia desde que os Deolinda surgiram no panorama musical nacional, reinventando o fado triste como sempre o conhecemos. Reafirma-se agora, com o projeto “Canções de Roda, Lenga Lengas e Outras que Tais”, onde juntamente com Vitorino, Sérgio Godinho e Jorge Benvinda nos alimenta esta memória cancioneira tão importante e a todos nós comum.

A voz de Ana, no entanto, vai além da arte do cantar.

Com a iniciativa “Desafiar Estereótipos“, que leva às escolas a discussão sobre as diferenças de género na sociedade, a artista desafia convenções arcaicas e planta, na cabeça e no coração dos adolescentes, a semente da mudança.

A Pumpkin conversou com ela – que, além de cantora e ativista, é também mãe.

Depois dos Deolinda, surge agora este disco, “Canções de Roda, Lenga Lengas e Outras que Tais”, também ele um projeto com raízes muito populares, mas virado para um público totalmente diferente. Como é que nasceu esta vontade de cantar para os mais novos? 

Nasceu ainda com os Deolinda, na verdade. Nasceu de uma ideia do António Miguel [Guimarães] para o Festival Sol da Caparica, em 2015: o de fazermos no Dia das Crianças um espectáculo com estes clássicos do nosso cancioneiro.

Correu tão bem e já estávamos tão entrosados que decidimos avançar para um disco, que é também é um livro com ilustrações da Cláudia Guerreiro, e que tem histórias escritas e lidas por nós. É um objeto muito completo e que mostra as nossas raízes, a nossa cultura, aos mais pequeninos.

Este é um álbum infantil ou é pensado também para evocar as memórias dos pais?

canções de roda, lenga lengas e outras que tais

O “Canções de Roda, Lenga Lengas e Outras que Tais” é uma passagem de testemunho. São canções que todos nós, que participámos no projeto, ouvíamos e cantávamos em miúdos, e que, agora em graúdos, estamos a adorar transmitir aos mais pequeninos. É também um trabalho para as pessoas da nossa idade.

Na verdade, é um disco para todas as gerações, com o objetivo de ajudar a criar memórias felizes, porque também eu tenho memórias muito felizes destas canções.

Este é um trabalho que tem muito da Ana Bacalhau mãe? 

Este era um trabalho que eu me via a fazer mesmo não sendo mãe, mas assim tem, claro, um gosto muito mais doce. Não só estou a contribuir para que os filhos dos outros ouçam música infantil em português, para que conheçam o nosso cancioneiro e a nossa cultura, como estou a contribuir para que a minha filha também o possa fazer.

A Luz vai fazer dois anos em maio e para mim é uma felicidade dupla poder ativamente entregar-lhe em mão um objeto em que eu participo e que lhe transmite canções que eu cantava quando era miúda.

Ela já reconhece a voz da mãe? 

Ainda hoje fiz uma entrevista na rádio ao mesmo tempo que a levava à creche. Estávamos no carro com a rádio ligada e ela, quando ouviu uma das músicas do disco, começou a gritar “mamã, mamã!”. Enquanto eu estava a falar não me ligou nenhuma, mas a cantar já me reconhece a voz. Levou com ela desde que nasceu, que eu bem cantava para ela adormecer (risos).

Acredita que a música é fundamental na educação das crianças do futuro?

Nem é uma questão de fé, é quase científico. Daquilo que eu vejo, que observo na minha filha e nas outras crianças, e até de que eu me lembro em mim, acho que a música é essencial para a socialização precoce e para aprendermos a estar em contato com o nosso corpo.

Dançar, uma reação à música, ajuda-nos a conhecer-nos e a exprimir-nos perante os outros. Ouvir música mas também tocá-la ajuda muito o nosso cérebro, que fica muito mais inteligente. Portanto, é tudo em bom. A música é tudo em bom (risos).

E as músicas deste “Canções de Roda, Lenga Lengas e Outras que Tais” ajudam a educar as nossas crianças em que vertentes?

Tantas! Estas músicas transmitem um conhecimento mais aprofundado da língua portuguesa, porque são canções com muitas lengalengas, muitas palavras e muitas expressões que já não se utilizam tanto, mas que os pequeninos podem adquirir através delas.

Também transmitem valores, falam de diferentes modos de vida, e dão a conhecer os ritmos tradicionais do nosso cancioneiro e das nossas danças populares.

 

Tiveram alguma preocupação especial aquando da escolha do reportório, numa fase em que letras como a também tradicional “Atirei o Pau ao Gato” são tão criticadas?

Este é um apanhado de músicas que têm associados valores próximos aos nossos. Pessoalmente, nunca conseguiria cantar uma música como a “Atirei o Pau ao Gato” porque acho que não passa uma mensagem muito interessante. Se já por norma nos meus concertos eu só canto coisas com as quais me identifico, esse cuidado tem que ser redobrado quando se trabalha para crianças.

No entanto, não escolhemos as músicas através do filtro do politicamente correto apenas. É muito interessante mostrar também outras visões e modos de vida. Estou a lembrar-me da música “Ó menino Ó”, que fala de um pai que vai à caça e da mãe fica em casa.

Isto eu já acho interessante mostrar, porque são hábitos que existiram, e ainda existem, em algumas aldeias e na sua vivência rural. É importante que as crianças sejam expostas a várias realidades para que depois possam escolher de forma mais informada e consciente os seus valores e aquilo com que se identificam.

Depois, escolhemos músicas que fizessem também sentido na nossa forma de cantar e que funcionassem igualmente bem como um todo.

Como é que foi trabalhar com nomes tão grandes como Vitorino e Sérgio Godinho? A sensação que fica, ouvindo-vos, é a de que casaram musicalmente muito bem. 

Casámos muito bem (risos). Desenvolveu-se uma dinâmica muito gira entre todos nós: entre quem canta e os músicos que nos acompanham, com o Filipe Raposo que fez os arranjos, e com o António Miguel Guimarães que liderou todo o projeto e que foi quem fez os convites aos intérpretes.

Acho que a ideia que ele tinha era a de juntar diferentes gerações de músicos e autores que contribuíram para produzir músicas que ficarão para sempre no cancioneiro português. O Sérgio Godinho, o Vitorino e o Jorge Benvinda fizeram-no de forma inequívoca, e eu, como intérprete nos Deolinda, espero tê-lo feito também.

O conceito foi simples: trazer estes músicos, autores e intérpretes de gerações diferentes e dar uma nova vida a estas canções, para depois transmiti-las à geração seguinte.

Correu muito bem. Todos nós nos demos muito bem musicalmente mas também pessoalmente e estou ansiosa para ir para a estrada com esta malta, vai ser uma pandilheira (risos).

Quando e onde serão esses concertos? Vão atuar em escolas?

Era muito interessante irmos atuar a escolas – não sei se há algum plano nesse sentido, mas para já o que temos planeado, ainda sem datas, são auditórios aos quais as famílias podem ir conhecer, sem idade mínima, até porque não fazia sentido, estas canções.

Com certeza haverá algumas matinés, de forma a fazer chegar estas músicas a todos.

desafiar estereótipos

Paralelamente, a Ana também trabalha ativamente em levar a sua voz às crianças um pouco mais velhas. Os debates sobre a desigualdade de género sucedem-se, felizmente, no nosso país, mas ao transportá-lo para o recinto escolar está, quase, a fazer uma intervenção direta na geração futura. Como é que surgiu o projeto “Desafiar Estereótipos“?

Esta ideia surgiu de um convite da Betweien, que está muito habituada a levar a cabo iniciativas educativas sobre todo o tipo de assunto. No entanto, deram-me total liberdade para escolher o tópico de queria eu falar com os alunos.

Tinha que ser um assunto que me dissesse algo – muito! – e do qual eu estivesse à vontade para falar. E sobre as desigualdades de género tenho muita coisa a dizer, e a dizer-lhes, não com o intuito de doutrinar ou de os convencer de alguma coisa, mas com o objetivo de os fazer começar a pensar.

A ideia é que as nossas conversas possam ser uma centelha, um despertar para estas temáticas. É ótimo se eu puder contribuir para esse inicio de pensamento destas gerações que estão entre os 12 e os 18, porque a sua personalidade está a formar-se nesta altura, a postura, a sexualidade e o conhecimento em relação a eles próprios e ao mundo também.

O que a motivou, então, a escolher um assunto como o da violência de género?

É preciso fazer alguma coisa sobre a epidemia de números horríveis, que têm vindo a público, de mulheres mortas e de vítimas de violência doméstica, mas também em relação a notícias sobre pessoas que estudaram uma vida inteira, que deviam ter muito mundo e uma abertura grande, mas que tomam decisões com base em conceitos completamente arcaicos e prejudiciais, que perpetuam o machismo, o patriarcado e a masculinidade tóxica – estou a falar obviamente do juiz Neto de Moura e das suas decisões debatidas na sociedade, mas existem muitos mais casos.

Somos uma sociedade ainda que trata as mulheres como de facto as únicas cuidadoras, não só dos filhos como da casa. O lugar da mulher é em casa… até na música senti muitas vezes que me queriam colocar aí, questionando o meu lugar. Eu não quero ficar em casa, é uma luta minha também, e é por isso que eu também me sinto capacitada para falar um bocadinho sobre este assunto.

Eu sempre me rebelei contra os papéis que me queriam dar, quando me diziam quais os comportamentos que eu devia e não podia ter.

Isto nunca fez sentido para mim. Para mim as pessoas são seres humanos primeiro e têm, por isso, necessidades e direitos iguais. Sendo humanos todos temos direito a sermos livres.

Os números da violência no namoro jovem são alarmantes. É importante tornar esta intervenção ainda mais precoce?

Para já, é muito claro para mim que as pessoas não sabem amar. Não sabem o que é o amor, não fazem ideia. Confundem-no com posse, propriedade, dependência.

E depois há outro problema grave: a saúde mental em Portugal é muito descurada, como infelizmente o é na maior parte dos países. A saúde mental tem influência direta nestas dependências psicológicas em relação ao outro, nestas faltas de auto-estima, de amor próprio e da falha na construção de si por si e não de si com o outro – ou seja, no desenvolvimento da noção de que eu me basto e que o outro não está lá para me completar e sim como parceria.

Como as pessoas veem o outro como uma parte de si, quando o outro se quer libertar não conseguem viver sem essa parte que falta, e por isso é que algumas pessoas tresloucadas quando cometem esses atos tresloucados de violência doméstica costumam dizer frases como “se não és minha não és de mais ninguém”.

Acabar com o estigma da saúde mental em Portugal era importante, combater a ideia de que se vais ao psicólogo és maluquinho, se vais ao psiquiatra ui ui, meu Deus. É um problema muito complexo, que deve ser atacado em muitas frentes, e quanto mais cedo melhor.

E como começar? 

Acho que vivemos num país muito conservador, mesmo muito. Temos que pensar nos valores que as famílias passam… começa por aí. Temos que fazer uma autocrítica. A nós mesmos, à nossa família. É muito difícil, porque a nossa família, para nós e até certa idade, está sempre certa. Mas às vezes não está.

Basta pensar nos conceitos de divisão de tarefas em casa. Se estes miúdos veem o pai “alapado” no sofá e a mãe sempre a “ralar” em casa – acho que são 1h45 a mais que as mulheres portuguesas trabalham em média – claro que o vão achar normal. As crianças adquirem os seus valores através da sua família. Portanto se a mãe faz de empregada doméstica que não é paga…

… esses conceitos têm tendência a ser reproduzidos mais tarde. A Ana tenta por isso mostrar a estes jovens que a sua possível realidade não é a única existente?

Sim, e temos a preocupação de nestas sessões não falarmos apenas no ponto de vista das mulheres. Acredito que o machismo e o patriarcado, a forma como a sociedade vê o homem e a mulher e os papéis que lhes atribui, é tão mau para as mulheres como para os homens, porque os homens também têm que preencher determinados requisitos do que é ser homem que muitas vezes são tóxicos para eles.

Há muitos homens que não se revêem em determinadas características mas a sociedade põe-lhes essa pressão. Muitos homens se calhar gostavam de estar mais tempo em casa com os filhos, só que depois os amigos e os familiares… direccionam-nos, exigem-lhes outras atitudes.

Também se diz que os homens não podem expressar-se emocionalmente e que não têm jeito para emoções. É treta. Isso não tem nada a ver com o facto de eles terem nascido homens e sim com como foi feita a sua socialização em criança.

As miúdas são estimuladas a falar sobre os seus sentimentos e os miúdos são estimulados a não falar sobre os seus sentimentos, portanto é natural que não tenham adquirido essa competência enquanto adultos.

A nossa ideia também é trabalhar para libertar os homens e fazer com que na cabeça destes adolescentes eles pensem: “Epá, pois é, querem que que eu seja assim e assado, que me vista assim e reaja assim, mas eu não me sinto confortável, não sou assim nem tenho que o ser”.

Se encontrar alguma incorreção contacte-nos por favor.

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