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Lua de Leite: Vivência e cuidados pós-parto

Lua Leite: Vivência cuidados pós-parto

Já ouviu falar da Lua de Leite? A Associação Portuguesa Pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto explica-nos tudo.

Lua de Leite é o período que se segue ao nascimento, também conhecido por puerpério ou pós-parto. A duração deste período é imprecisa e variável, podendo apontar-se como referência uma extensão média de 6 semanas.

É um período de intensas mudanças, físicas e emocionais e, por isso, bastante exigente. O bebé está a fazer a sua adaptação à vida extrauterina, quase tudo é novo para ele e alguns dos seus órgãos e sistemas continuam ainda em acelerada maturação. Precisa da maior disponibilidade possível por parte da mãe, ela que é a principal permanência na sua vida, agora que abandonou o resguardo do útero.

A mãe, por seu lado, ainda que não seja o seu primeiro filho, é neste momento uma mãe recém-nascida. Também ela está a tatear por entre uma nova realidade, seja porque até então não era mãe, seja porque passou agora a ser mãe de mais um filho e tem que gerir a sua integração junto das outras crias e de si própria.

Igualmente para o pai, este período é muito particular. Pela mesma ordem de razões, também ele é um pai recém-nascido, a aprender o seu novo ou renovado papel de pai! Embora não viva alterações fisiológicas, as emocionais e vivenciais são pelo menos tão intensas como as da mulher.

Para a mulher, também fisicamente este é um período peculiar. Alterações hormonais e fisiológicas marcam estes tempos após o parto. Os órgãos reprodutores da mulher estão a voltar ao seu estado de antes da gravidez e há a recuperação do esforço do parto e, eventualmente, das cicatrizes que tenha deixado.

Também se fazem sentir alterações hormonais, com a descida abrupta dos níveis de estrogénio e progesterona a necessitar de compensação através da produção de oxitocina e prolactina asseguradas pela amamentação, repouso, tranquilidade e contacto físico.

Oxitocina e prolactina produzem um reforço da imunidade e ativação do sistema nervoso parassimpático, responsável pela recuperação do stress, aumento da tolerância (nomeadamente à falta de sono) e facilitador dos processos de vinculação e têm assim, um papel preventor da depressão pós-parto.

A Lua de Leite é o tempo da vinculação, o tempo em que a mãe e bebé e o pai e o bebé se conhecem e aprendem a amar-se. Como quaisquer amantes no começo de uma relação, mãe, pai e bebé precisam de tempo a dois ou a três, sossego e tranquilidade para estarem uns com os outros e uns para os outros.

Tudo que desvia a atenção e a energia da mãe recém-nascida para longe do seu bebé recém-nascido é de evitar. Horários, responsabilidades, tarefas fora deste universo da vinculação entre mãe e bebé são supérfluos nesta fase. O grande trabalho durante a Lua de Leite é o do amor. Tudo o resto pertence a um segundo plano. É esse amor que lança as bases de uma relação sólida entre mãe e filho e constrói para o bebé um lugar seguro na vida. Esse espaço para o amor é também o que permite à mãe conquistar confiança nas suas capacidades 

enquanto mãe, seja para prestar ao bebé os cuidados diários seja internamente, para se fortalecer no seu novo papel e ultrapassar os fantasmas e inseguranças que toda a mulher carrega consigo, pelas mais variadas razões. E o pai é o zelador principal deste tempo de amor, o mais desejado protetor da mãe e do bebé, ao mesmo tempo que faz o seu próprio trabalho de vinculação.

A Lua de Leite é também o tempo da criação de rotinas de alimentação. O tempo em que a amamentação é ensaiada, aperfeiçoada e transformada no momento privilegiado de nutrição física e emocional, do precioso e imprescindível contato pele com pele, que pode e deve estender-se ao máximo de momentos possíveis, para além da amamentação.

Em termos muito práticos, que cuidados são adequados para que a Lua de Leite seja vivida ao máximo e permita à mãe, ao pai e ao bebé estabelecer a sua relação, recuperar da rutura que o parto introduz nas suas vidas e fortalecer-se física e emocionalmente?

  • Compreender

Compreender a importância de viver este período como uma lua de leite, com tempo e dedicação para com o bebé, tal como os casais em lua-de-mel.

Desta compreensão nasce a aceitação e a capacidade de a mãe não se sentir culpada porque tudo o resto fica, nesta fase, para segundo plano: é a natureza a fazer o seu trabalho de preservação da espécie, trazendo a mulher para um espaço íntimo e interno onde se pode dar ao seu bebé e garantir a segurança física e emocional dele e a sua própria recuperação física e emocional.

É importante que esta compreensão seja partilhada pelo companheiro, para que ele consiga situar-se neste contexto temporário e entender de que forma melhor poderá prestar apoio.

Compreensão é também conhecimento e reconhecimento acerca das exigências físicas e emocionais desta fase para que possa existir compaixão da mulher consigo mesma, em lugar de impaciência e autorrecriminação pelo cansaço e menor capacidade de desempenhar outras tarefas que não as de cuidar do bebé

  • Recolher

Só num certo recolhimento é possível repousar o necessário e encontrar e dar dentro de si lugar para todas as emoções e mudanças. As visitas são de evitar nestes primeiros tempos. Isso não quer dizer que a mãe deva estar isolada, pelo contrário, mas sim que deve dar-se o direito de restringir o número e a duração das visitas àquilo que lhe for confortável e estar atenta a sinais de exaustão, sua ou do bebé, para ajustar a exposição dos dois a terceiros àquilo que lhes for tolerável e confortável.

As visitas, embora bem-intencionadas, podem também ser uma fonte de insegurança para os pais recém-nascidos, com a multiplicidade de dicas e conselhos e histórias de como procederam no passado. O momento é para o presente e para o aqui e agora. Com tantas vozes em torno de si, é difícil para os pais reconhecer a sua própria voz e sintonizar-se com ela.

Silêncio e recolhimento são necessários para o encontro consigo mesmos imprescindível neste período de construção enquanto mães e pais.

  • Apoiar-se

Dar-se ao direito de contar com o apoio dos outros quando o oferecem ou pedi-lo quando necessário será aquilo que permitirá aos pais viver este período da forma que é orgânica para a espécie humana e portanto a mais confortável e geradora de bons desfechos para todos: em tribo. Somos mamíferos gregários.

Não estamos adaptados para a vida solitária, muito menos quando temos uma cria pequena a nosso cargo. Este é o momento de reforçar vínculos sociais e familiares com pessoas da confiança da mãe e do pai.

Que eles tenham e sintam a liberdade de pedir ajuda e a possibilidade de o fazer, junto de quem entendam. Pode ser a mãe, uma irmã, uma amiga, mas também uma profissional – uma doula de pós-parto, uma educadora perinatal ou uma conselheira de amamentação, se houver alguma dúvida ou dificuldade nesta área específica.

Quem quer prestar apoio, que seja a visita silenciosa, que toma a seu cargo aquilo que vê que precisa de ser feito e se mantém atenta para não impor a sua presença para além do desejado.

  • Desfrutar

A lua de leite pode ser verdadeiramente mágica e magicamente maravilhosa. Tempo para longos olhares, para o toque amoroso, para respirar o cheiro do bebé, entregar-se a ele e celebrar o amor.

Quanto mais entrega puder haver nesta fase, mais fortalecida fica a relação entre pais e filho e melhor equipada está a família para os muitos desafios e descobertas que a esperam.

Que o pós-parto possa ser vivido com encantamento, mesmo entre desafios e cansaço. E que a comunidade, próxima ou alargada, possa ser uma rede segura de apoio, atenta às necessidades da família e pronta a sinalizar cuidados precisos e intervir de forma afetiva e efetiva quando a ajuda faz falta.

Isabel Valente

Associação Portuguesa Pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto