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Contra a chucha, marchar, marchar

Contra chucha, marchar, marchar

O Rui Brasil é psicólogo, escreve o blog Em Nome do Pai e tem uma filha. Está por isso mais do que qualificado para dar uma ajuda aos pais com crianças que resistem no desmame da chucha, para que este processo não seja um drama!

Nenhuma criança começou a chuchar por auto-recriação, portanto, pais queridos quando começarem a frustrar porque a criança resiste em deixar a chucha lembrem-se de quem a introduziu. A chucha é uma coisa boa. Se não fosse o seu uso não teria sido perpetuado ao longo do tempo e não seria alvo de habituação por parte das crianças. E é boa porquê?

Ora bem, a chucha não é mais que uma espécie de mamilo de borracha ou silicone. Exacto: mamilo. Aquela coisa que nos conduz à mãe. Por outro lado, o acto de chuchar implica um certo ritmo que nos remete aos batimentos cardíacos da própria mãe, o que funciona como um factor de segurança e conforto, protecção e contenção. 

Por estas, entre muitas outras razões, o acto de chuchar contribui para a redução da ansiedade nas crianças, conferindo-lhes segurança e tranquilidade, capacidades de auto-controlo e de auto-gestão. 

Por esta razão não há uma idade “certa” para o desmame da chucha. Na minha óptica, a criança deve largar a chucha quando se sentir preparada para o fazer, quando tiver recursos alternativos próprios para gerir a ansiedade, a frustração, a insegurança, o medo, o receio sem ter que recorrer à chucha. 

Cabe aos pais conduzir a criança ao reconhecimento destas estratégias quando, finalmente, as possui, de forma a entender que o papel da chucha já não é importante no seu dia-a-dia. Mostrar de forma factual e pragmática que o escuro não oferece nenhum perigo, promover um papel mais proactivo face a ambientes desconhecidos incentivando à exploração dos esoaços, treinar estratégias de auto-controlo em situações adversas são alguns dos papéis que os pais podem ter, não para promover o desmame da chucha, mas antes para fortalecer as estratégias de auto-gestão e os recursos emocionais que dispensarão, a curto prazo, o papel da chucha. 

Minimizar a criança ou despromovê-la chamando-a de “bebé”, humilhá-la ou ridicularizá-la com argumentos como “tão crescida e ainda usas chucha?” ou “não tens vergonha de ainda usar chucha?” são apenas factores que contribuem para o sentimento de culpa, o decréscimo da auto-estima ou o aumento da ansiedade da criança, ou seja, tudo o que não queremos nesta etapa. É importante caminharmos no sentido oposto, dotar a criança de confiança, aumentar a sua percepção de auto-controlo, valorizá-la e resuzir-lhe a ansiedade, de forma a que, gradualmente, tenha necessidade de procurar a chucha como elemento de segurança e confiança. 

Outra das estratégias mais comumente utilizadas é a de fazer desaparecer a chucha e apresentar, como facto irreversível, o seu desaparecimento à criança. “A chucha caiu na sanita” ou”o velho do saco veio de noite e roubou-te a chupeta” são estratégias que incutem sofrimento à criança, ansiedade de separação do que é, muitas vezes, o seu objecto de transição e aumentam a insegurança, o desconforto e geram sentimentos de revolta, impotência, desconfiança e zanga por parte dos mais pequenos. 

Assim, na minha perspectiva, não se deve fazer do desmame da chucha um caso de vida ou morte. Há que respeitar o tempo da criança, os seus recursos emocionais, a sua predisposição e motivação para abdicar deste objecto e negociar com ela este desmame, de forma ao mesmo não ser imposto mas, antes, auto-gerido e assimilado. 

Há muitas ideias que se podem propôr (não impôr) como o de deixar a chucha na árvore das chuchas e ir visitá-la sempre que se sentir saudades, deixar a chucha num local de fácil acesso para a criança ter a sensação de que a tem disponível se precisar (tal como muitos fumadores em processo de deixarem de fumar fazem com o maço de cigarros) e dar-lhe essa sensação de controlo (dando reforço positivo sempre que conseguir gerir situações de stress sem recorrer a ela mas não a penalizando se tiver que recorrer), negociar o uso da chucha apenas à noite como um momento especial e de cumplicidade quase secreta, combinar uma “palavra secreta” para quando se precisa da chucha que só deve ser usada em s.o.s  como se se partilhasse um código ou, seja, trazer o lúdico para esta fase. 

O pediatra da minha filha sugeriu algo muito divertido do ponto de vista simbólico: oferecer à chucha uma caminha feita de caixa de fósforos, com um lençolzinho feito de tecido e uma almofada mini, de forma à chucha poder descansar depois de uma noite de árdua trabalho enquanto a pequena dormia. Assim, sempre que a Ana acordava era altura da chucha ir dormir e trocarem de turno. 

Retirar a chucha de forma impositiva e à força é errado e pode levar à substiruição por outros “vícios” como roer as unhas os chuchar nos dedos da mão. 

Por isso, não temos pela chucha uma relação de adversidade e de inimizade. A chucha é uma coisa boa, introduzida por nós, que serviu para acalmar e dar segurança à nossa filha durante muito tempo. Cabe-nos a nós ajudá-la a encontrar outros recursos próprios para ter esta mesma sensação securizante e dispensar a velha amiga. Sem dramas, sem stresses, sem pressas. Com paciência e amor.