Comer, que alegria! ... ou não? - Pumpkin.pt

Comer, que alegria! … ou não?

BLW

Introdução ao método Baby Led Weaning.

É muito emocional a relação das mães com o alimentar os filhos. Constança Cordeiro Ferreira é conhecida como a fada dos bebés e fala-nos sobre algumas estratégias para reduzir os conflitos à mesa, nesta introdução ao Baby Led Weaning. 

Dou-vos o exemplo da Vera que tinha 15 meses quando os pais me procuraram. A mãe preparava sopas maravilhosas com legumes biológicos que acabavam invariavelmente no chão. Ou a Vera gritava e não aceitava sequer provar. A refeição acabava muitas vezes com a mãe a chorar. A sopa atirada para o chão era sentida como uma afronta pessoal, quase como se a Verinha estivesse, ao recusar a sopa da mãe, a recusar a própria mãe. (Obviamente que não estava, mas o seu comportamento quase que era entendido assim). Quando o conflito à mesa chega a este ponto, e o médico assistente do bebé já excluiu causas físicas, é preciso encontrar estratégias para a paz no momento da refeição.

Para ajudar a entender o ponto de vista do bebé e a forma como podemos reduzir os conflitos à mesa, deixo-vos algumas estratégias, também presentes no meu último livro.

Comer é um processo sensorial.

Já reparou como o seu bebé explora o mundo com a boca? Porque razão não o estará a fazer com a comida?

A alimentação é um processo altamente sensorial. A experimentação de novas texturas, sabores, as cores dos alimentos, os cheiros… tudo isto pode ser uma verdadeira festa para o seu bebé. Pense se a refeição está a ser interessante do ponto de vista sensorial. Se está a deixar o bebé tocar, cheirar, mexer, provar. Uma colher que avança em riste para a boca do bebé pode não ser muito interessante. Deixe-o provar a sopa no seu dedo primeiro. Deixe-o mexer nos alimentos não totalmente triturados. Dar controlo ao bebé sobre o processo é muitas vezes o que é preciso para atenuar a recusa de novos sabores ou texturas.

Comer é um processo de imitação.

A biologia dos nossos bebés tem 200 mil anos. A recusa do estranho remonta muitas vezes a esta época em que ingerir uma baga venenosa podia ser fatal para um bebé. Mas o que é estranho passa a ser familiar, quando o bebé observa os adultos ou irmãos a ingerir o alimento (e a não cair para o lado a seguir!). Tão cedo quanto possível, as refeições devem ser feitas em família. Aos 12 meses a família já pode comer toda o mesmo prato. Antes disso, já é possível fazer muitas refeições comuns para todos, basta os adultos colocarem o sal e temperos no seu prato e não no tacho.

Sentem-se à mesa e desfrutem. Façam refeições familiares com os alimentos que o bebé já pode comer. E, quando se sentarem à mesa, não virem os olhares todos para o bebé. Deixem-no explorar o prato. Se quiser dê-lhe umas colheradas enquanto ele o faz, mas foque-se na sua própria refeição. Deixe-o roubar comida do seu prato e, se ele está desinteressado, experimente roubar um pouco de comida do prato dele. Não distraia sistematicamente o bebé com ecrãs, bonecos, aviõezinhos… dê-lhe espaço para que ele explore o processo. O objectivo não é só que ele coma a todo o custo, é mais profundo que isso. É desenvolver uma boa relação com a comida.
Sejam felizes à mesa.

Comer requer perícia.

Um bebé com sono, cansado ou irritado terá sempre menos tendência para aceitar a novidade. Coloque o bebé à mesa enquanto está bem disposto. Se as refeições estão a ser um desafio conjugue-as para uma hora em que o bebé não tenha sono. E lembre-se que as refeições com o bebé não vão poder durar eternidades. Vinte ou trinta minutos é o que um bebé de um ano e pouca aguentará bem disposto à mesa.

Muitas vezes o comportamento exploratório com um dado alimento é uma construção: o bebé precisa de vê-lo no prato várias vezes, depois experimentará levá-lo à boca e, por vezes só após vários dias de repetição, aceitará comê-lo. Apresentar variedade de alimentos é muitas vezes um processo introdutório. Não desista, continue a pô-los no prato mesmo que das primeiras vezes os brócolos venham para trás.

Comer pode (DEVE!) ser uma festa.

Falando de bebés mais crescidos, a partir do ano de idade, na grande parte dos casos em que nos parece que os bebés não comem grande coisa o pediatra não se mostra preocupado. O bebé cresce bem, está de alguma forma a obter o que precisa para se desenvolver bem. Ou seja, há margem para poder fazer este processo sem um stress desmedido. A refeição não deve ser um momento hiper solene, carregado de expectativas. Veja-a como um processo. Cada refeição é só isso… uma refeição.

E quem disse que não se pode brincar com a comida?!

O que pomos no prato vem da terra, de uma terra que pulsa e alimenta. Mostre ao bebé o processo anterior à chegada ao prato. Arranje-lhe umas panelinhas de brincar e de-lhe uns legumes iguais aos que está a por na panela grande.
Não misture os alimentos no prato. Deixe-os separados para que o bebé possa escolher por onde começar. Pode organizá-los por cores e assim verá se o seu bebé está a rejeitar o alimento ou a cor (sim, acontece!). Deixe-o escolher as maçãs no supermercado e colocá-las no saco. Pergunte-lhe se prefere levar cenoura ou tomate. Mostre-lhe as pêras na árvore, as couves na terra. Conte-lhe a história de cada alimento.

Comer é maravilhoso.

É um exercício de descoberta, de preferências, de controlo, de socialização. É contactar com o mundo e retirar dele o que tem de melhor para nos ajudar a crescer

Têm posto isto no prato dos vossos bebés?

No próximo dia 6 de Maio Gill Rapley, a criadora do método Baby Led Weaning vai estar em Portugal com um Workshop para pais e cuidadores de bebés. Organizado pelo Centro do Bebé, este é um evento único para todos os que querem saber mais sobre alimentação dos bebés.

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