Cristina Leite Pincho: "A maternidade não tem de ser vivida sozinha" - Pumpkin.pt

Cristina Leite Pincho: “A maternidade não tem de ser vivida sozinha”

Cristina Leite Pincho - capa

A Pumpkin foi ao encontro da especialista em Amamentação para perceber os medos, os dilemas e o que devem as mães fazer perante as dificuldades na alimentação do seu bebé.

Cristina Leite Pincho, Consultora de Lactação, Doula certificada pela Associação Doulas de Portugal, Instrutora de massagem para bebés, Educadora Perinatal e Consultora de Babywearing lançou recentemente o seu primeiro livro, “Amamentar: A escolha natural para o seu bebé”, na qual aborda o tema da Amamentação – incluindo as suas dificuldades, os maiores problemas com que as mães se deparam e os palpites das pessoas em redor, problemas estes que prejudicam muitas vezes a já “difícil” taraefa da recém-mamã.

A Pumpkin foi falar com a especialista sobre o tema que continua na ordem do dia entre as recém-mamãs, o seu núcleo familiar e a comunidade médica internacional.

Leite materno: o melhor alimento

Cristina Leite Pincho - leite materno

De acordo com a especialista, o leite materno é natural, biológico, fisiológico e como tal “é o que está desenhado para ir de encontro a todas as necessidades do bebé. Bioquimicamente tem todas as características que correspondem exatamente ao que o bebé precisa”. Segundo Cristina Leite Pincho não há nenhum outro alimento ou produto que a ele se assemelhe.

“Logo, quando damos coisas que os bebés não estão preparados para o bebé receber (imitações – tentativas de replicar o leite materno) não chegam, estando até muito aquém do que o bebé precisa.”

Isso pode originar défices alimentares, nutricionais e de imuno-deficiência – défices de saúde, em geral.

“A amamentação é muito mais do que dar comida é uma relação que se estabelece com o bebé e que as pessoas devem fazer escolhas informadas e que não devem ser empurradas pela opinião dos outros. E mesmo que, a opinião ou a decisão seja, não amamentar, que seja uma escolha da mulher e não o resultado de uma série de consequências.”

Principais dilemas de quando se é mãe pela primeira vez

dilemas das mães pela primeira vez

Cristina Leite Pincho conta que a principal dificuldade que sente por parte das mães são as dores. A própria, mãe de 5 filhos, revelou que também passou pelo mesmo. Diz, em jeito de brincadeira, que costuma dizer às mães que ajuda que “dói em cima, dói em baixo, dói tudo. No  fundo, dói a alma”.

Além disso, “o desespero do cansaço, as noites sem dormir são muito complicadas”. Através da sua experiência pessoal conta-nos que, apesar de os bebés não serem uma novidade para si, “a maior dificuldade foi sentir aquela enorme responsabilidade que ecoa na nossa cabeça e nos diz ‘Este é meu e depende só de mim’”, o que aliado ao facto das coisas nem sempre correrem como os pais idealizam só agoniza a dor que já sentem.

“A primeira lição que aprendi foi que os bebés mandame nós [pais] queremos ter uma vida normal, mas com um bebé não é assim. A adaptação inicial é um bocadinho complicada. As pessoas podem dizer-nos, mas quando sentimos na pele é totalmente diferente.

Entre o enorme sentido de responsabilidade – difícil de assumir e de encaixar -, as dores e o querermos ter a vida como antes e não ser possível é uma reestruturação que dói na alma.”

Além disso, Cristina explica ainda que, muitas vezes, as pessoas nem sempre ajudam, uma vez que não compreendendo toda a reformulação necessária da vida de alguém que tem agora um bebé pequenino nos braços, tendem a julgar muito.

Como diz, quando se tem um filho, as pessoas ficam mais cansadas e, por esse motivo, é normal que não haja tanta disponibilidade para um jantar ou uma saída. E não é apenas pelo cansaço, mas também porque “às vezes só lhes apetece ficar sossegadas, tranquilas e a descansar”.

Afinal, amamentar dói ou não?

Amamentação

Através do curso de aleitamento materno que fez pela La Leche League, Cristina Leite Pincho apercebeu-se que o ato de amamentar não precisa de doer.

“Costumo dizer que tive dois filhos depois para verificar se o que o curso ensinava era, de facto, realidade. A primeira pessoa que me disse que se doía era porque o bebé estava a fazer uma má pega [uma forma errada do bebé abocanhar a mama da sua mãe], coisa que nem eu não sabia o que era, pensei ‘Mas eu sou mãe de três… como assim fazem uma má pega? Que disparate é esse?'”

Depois compreendeu que esta tarefa de nutrir a criança podia e deveria ser feita de uma forma diferente.

“Dei por mim a pensar que afinal, nós é que andávamos a complicar o processo natural e a estragar a forma natural de dar alimento aos filhos, através da amamentação.”

Resposta ao bebé

Amamentar

“A resposta ao bebé é algo muito instintivo e, talvez por essa razão, seja uma arte feminina. Contudo, hoje em dia estamos completamente ‘afogados em informação’, numa sociedade que ‘desempodera’ muito a mãe – as mães seguem mais regras do que seguem os bebés e, portanto, dificulta não só a amamentação, como todo o processo.”

As mães tentam ao máximo potenciar esta difícil tarefa, que tem tanto de difícil (erradamente), como de bela e “gratificante para a maioria das mães, quanto mais não seja por saber que estão a ajudar os seus bebés com o seu leite – o que, como se sabe, proporciona inúmeros benefícios para a criança.”

A autora do livro “Amamentar: A escolha natural para o seu bebé”, Cristina Leite Pincho, explica que o problema de muitas mulheres quando estão prestes a ser mães ou quando já o são é que acabam por se focar demasiado nas regras que ouvem e muito menos no seu próprio instinto.

“Focam-se menos no seu instinto e no seu próprio bebé, sendo o nosso instinto que nos leva a responder ao bebé. Essa concentração nas opiniões alheias causa imensos problemas: a mãe fica confusa, ansiosa, segue todos os passos para dar de mamar corretamente e nem sempre corre bem”, devido à pressão que sobre elas existe, esclarece.

O ideal seria proteger a mãe dessa pressão, porque só assim todo o processo fluiria naturalmente e sem stresses acrescidos.

“Ou seja, ou a amamentação é uma arte feminina e as pessoas são intuitivas e dão esta resposta ou, quando se começa a fazer interferência, surgem estes problemas. O que acontece é que entre a arte e a ciência há uma série de ‘treinadores de bancada’ [aquelas pessoas que se acham no direito de opinar sobre o que a mãe está a fazer] e até mesmo os profissionais que não se especializam na ciência e que também não estão na arte.’

Onde recorrer quando surgem dúvidas?

Linha SOS Amamentação

amamentar

Cristina Leite Pincho foi pioneira no apoio à amamentação em Portugal, e cofundadora do SOS Amamentação, uma linha que, tal como Cristina, conta com especialistas com formação em aleitamento materno 24 horas por dia.

Segundo Cristina, o intuito desta linha é fornecer apoio imediato às mães que estão com alguma dificuldade a amamentar e precisam de respostas imediatas ou de tirar dúvidas no momento, não podendo esperar por uma consulta, uma vez que isso iria representar mais ansiedade na mamã. E já sabemos que a ansiedade resulta em stress da mãe que, por sua vez, se poderá refletir também no padrão comportamental do bebé.

Grupos de apoio de mães La Leche

Grupos de mães
Foto: Elizabeth Stanley Photography

A La Leche League Internacional é a organização mais antiga do mundo de apoio à amamentação – remonta ao ano 1956 – e começou nos Estados Unidos da América através de um encontro, “acidental”, de um grupo de sete mães num piquenique junto a uma igreja.

A partir daí, começaram a reunir-se mais frequentemente, com vista a partilhar experiências na tentativa de ajudar as mães que queriam dar de mamar, mas que, por algum motivo, não conseguiam.

Assim nasceu a organização, numa altura em que, no EUA, a percentagem das mães que alimentavam os seus filhos com leite materno era de apenas 20%.

Sendo Cristina mãe a tempo inteiro, partilhava alguns encontros entre amigas, recém-mamãs também. De um desses convívios surgiu a ideia de, juntamente com uma amiga, fazerem algo mais pela comunidade, visto terem uma maior flexibilidade de tempo. A amiga acabou por lhe falar da La Leche League e do curso que poderiam fazer para implementar também, em Portugal, um grupo de apoio e moderação de mães.

Foi, após esta conversa, que deu início ao processo de certificação e, mais tarde, continuou o trabalho desta Associação Internacional.

Cristina Leite Pincho frisa a importância deste tipo de convívios que obriga as mães a estarem juntas para debater questões e tirarem dúvidas:

“É importante que as mulheres estejam com outras mães e que tenham alguém a moderar que seja sensível e que não se guie demasiado pelas regras ou que se paute pela sua forma de maternidade.”

É necessário dar espaço para que cada mulher encontre a sua própria visão da maternidade, ainda que existam algumas técnicas consideradas boas práticas, mas que, no entanto, não funcionam com todas as mães, explica. Ainda assim, a mãe tem que “descobrir se isso lhe faz sentido e funciona consigo.”

Onde se reúnem?

“Não há muitos grupos da La Leche em Portugal, porque não há muitas moderadoras – como o processo de certificação é muito longo, há quem não o consiga completar ou não tenha disponibilidade para tal.

Dos meus grupos, as mães vão contactando comigo e costuma ser uma vez por mês, normalmente, na segunda sexta-feira.”

Contudo, para mais informação existe uma página oficical de Facebook da Liga La Leche Portugal, na qual poderá obter informações.

Sobre Cristina Leite Pincho

A paixão da autora pelas questões ligadas à maternidade e à infância

Cristina Leite Pincho

A especialista em amamentação, revela que esta paixão aconteceu naturalmente na altura em que foi mãe pela primeira vez, aos 22 anos.

“Nunca pensei que ia trabalhar com bebés e mães, muito menos que as ia ajudar na tarefa de amamentar. Entre as minhas amigas fui a primeira a ser mãe e passei todas as dificuldades pelas quais todas as outras mães passam.”

Licenciada em Ciências Sociais, com enfoque na área da Política Social e da Psicologia, Cristina Leite Pincho confessou que, o tema da amamentação, sendo ela uma apaixonada por biologia, a cativou por achar todo o processo envolvente “maravilhoso”.

“Eu achava que se tinha leite e mamas, era lógico que ia dar de mamar, porque é algo natural e que, portanto, se doesse tinha que aguentar, porque fazia parte do pacote.”

Este amor crescente pela maternidade, pelo bebé e pelo seu crescimento foi despoletado pelo facto de, além de ter sido mãe nova e a primeira mamã do grupo de amigas, ter tido vários filhos (cinco, no total. Sim, leu bem, cinco filhos – com uma diferença de cerca de dois anos cada, o que os torna bastante próximos). E, mais ainda, como fez babysitting desde a adolescência este “complexo” universo dos bebés não a assustava.

Encontros de mães

mãe e filho

Cristina quis acompanhar os seus filhos de perto, tendo optado por ser “mãe a tempo inteiro”. Seis anos depois de ser mãe pela primeira vez criou, juntamente com duas amigas, um grupo de mães para apoiar emocionalmente as mulheres que optavam por ficar em casa com os seus filhos.

“Quando tive a minha 3.ª filha, uma grande amiga minha teve o primeiro filho e veio ter comigo e trouxe uma outra amiga, que tal como eu, tinha três filhos, e que também tinham decidido estar em casa com os seus bebés. Mas isto de viver a maternidade de maneira muito isolada não era para mim.

A minha amiga tinha amigos estrangeiros e tinha ainda acesso a muita informação do que se passava e se fazia nos outros países nestas situações – a reunião de grupos de mães. Então, ela – a Rita – teve a ideia de começarmos este grupo de mães.

Era um suporte emocional e a ideia era estarmos juntas para não vivermos a maternidade isoladas.
Começou connosco, porque já éramos duas mães veteranas com três filhos e uma com um.”

Posteriormente, juntaram-se outras amigas e amigas de amigas e por aí a fora. E, para Cristina Leite Pincho, foi uma ideia que fez todo o sentido, porque “a maternidade não tem de ser vivida sozinha”. Na altura – há cerca de 20 anos – teve um impacto bastante grande, porque, segundo a consultora de lactação, não era comum haver estes tipos de grupos.

“O foco destes grupos era para nos sentirmos acompanhadas de pessoas adultas, de não querermos estar sozinhas, criando naquelas alturas um momento para estarmos todas juntas, partilhar e ter um momento nosso.”

Conta divertida que, às vezes, “até cometíamos uma loucura e contratávamos uma babysitter para estar com os miúdos” e estarem mais à vontade, porque, como diz, “é sempre desafiante isto de estarmos sempre com os nossos filhos e então, de vez em quando, era bom estarmos pelo menos uma vez por semana juntas”, ora na casa de uma, ora na casa de outra, ou se estivesse bom tempo juntavam-se no jardim, alternando assim o espaço para estas reuniões de amigas e mães.

Todas as mães que aparecessem eram bem-vindas. Bastava aparecer e juntarem-se ao grupo, partilhando o seu tempo e as experiências.

Normalmente, quando o bebé nasce, as pessoas tendem a focar toda a sua atenção toda ao bebé e a mãe é, na maioria das vezes, quase totalmente esquecida. Mas, também a mãe precisa de atenção, de cuidado e de sentir que se preocupam consigo.

“Costumo dizer que é um espaço de encontro onde as pessoas que querem amamentar, mas onde algumas que tiveram problemas e outras que nunca tiveram problemas, encontram pessoas que estão, pelo menos, no mesmo comprimento de onda – ou seja, que percebem que os bebés amamentados têm outro tipo de padrão do que os outros, mas que, ainda assim, quem quer dar de mamar, às vezes precisa de um suporte.

Em Portugal, a percentagem de mulheres a alimentar o seu bebé exclusivamente a leite materno é uma percentagem muito grande, mas há que reconhecer que existem ainda muitas mulheres que não amamentam.”

Liga La Leche Portugal

Em 2001, formou-se como Moderadora da La Leche League, a organização mais antiga do mundo de apoio à amamentação, dando início, em Portugal, ao trabalho desta reputada Associação Internacional – a La Leche League Internacional.

Formação e mais formação: Algo que deve ser feito continuamente

Formação

A realizar constantemente cursos e formações para se manter a par “do que se faz e como se faz agora” para ajudar as jovens mães, a especialista, explica que o ideial, para todos os profissionais, com especial enfoque para os da área, seria apostarem em formações  que lhes mostrasse a improtância de “humanizar” o parto, ajudar a mulher incentivando-a a não desistir e dando apoio emocional.

“Às vezes só saber o lado técnico não ajuda, porque precisamos de perceber toda a ambiente envolvente da mulher (o seu mundo psicocultural e social). Contudo, isso só se consegue com a bagagem que trazemos[experiência de vida] para aquilo que fazemos.

A forma como abordamos estas áreas, que é uma coisa de mulheres e de mães, que felizmente que tem algum apoio, seria necessário deixar brotar mais e ajudar a pessoa a intuir, em vez de a ensinar a fazer, mas isso depende da bagagem que eu tenho, da bagagem que os outros têm.

Se eu sou um profissional muito técnico e se vou descurar toda a parte intuitiva da mulher, então a pessoa não é ajudada nesse sentido – não se vai ouvir a mãe [que é o essencial].

Há que olhar para as coisas por um outro prisma. E isso eu não sei como é que se faz – são caminhos pessoais que as pessoas fazem por mais.”

Se a pessoa que está a acompanhar a mulher e não tem esse conhecimento ou nunca teve essa formação, e como, qualquer pessoa, ninguém sabe fazer tudo, é importante que os profissionais de saúde saibam que existem outros profissionais para que possam encaminhar as mães que estão com dificuldades.

Se há quem tenha convivido com bebés a vida toda e que encare a vinda deste novo ser com muita tranquilidade, também há mulheres que o seu primeiro bebé é o primeiro bebé num contexto próximo, o que as deixa muitas vezes em pânico e muito agitadas, o que não resulta muito bem depois na interação com o bebé.

“Se eu for ajudar uma mãe, não me interessa se estou a melhorar os índices de saúde do bebé ou da mãe ou do que quer que seja. Interessa-me, sim que eu esteja a ajudar aquela mãe a conseguir uma experiência gratificante e uma relação com o seu bebé. O resto vem por acréscimo. Se as percentagens de mulheres que amamentam aumenta e que isso é um bom indicador de saúde melhor, mas o meu trabalho não é para o indicador, mas para a mãe em si e para aquele bebé.”

Portanto, os profissionais devem de ter formação específica sim – uma espécie de transformação que consiste em ver para além da parte técnica e científica (números a atingir, etc.), enaltece.

Considerações Finais

“Está tudo bem! Vais conseguir!”

“Acima de tudo, o que as mães precisam de ouvir, seja de quem for, dos profissionais, da família e dos amigos é “Tu és capaz!” e não “Tu tens um susto na mão. Tens que ter cuidado com isto, com aquilo e com aqueloutro”.

É, aliás, por esse motivo, que Cristina Leite Pincho costuma dizer muitas vezes que as pessoas “vão com um susto para casa” e não com um bebé – o seu bebé, devido à quantidade enorme de medos que lhes põem.

O trabalho de todos deveria ser ajudar aquela/essa mãe a descobrir, a redescobrir-se enquanto mulher e mãe, percebendo como o seu organismo funciona agora.

“Porque se se ajudar e se se disser “Tu és capaz”, as mulheres vão ganhando forças e vão, sim, sendo capazes.”

Se a pessoa retém a frase “Tu não és capaz” (apesar de, na maior parte das vezes, não ser dito com estas palavras) e todas as instruções que lhe dão para agarrar o bebé, para o horário das mamadas, o tipo de leite e outras tantas coisas que a pessoa fica assustada, em pânico, com uma nova responsável sobre um pequenino ser humano e só pensa “Eu não sei! Eu não sou capaz!”, não vai de facto conseguir.

relação mãe-e-filho

A mente é muito importante na motivação e, consequentemente, para o estabelecimento de uma boa relação entre mãe e filho.

Aproveite os momentos junto do seu pequenino. É dito e sabido que crescem depressa e depois, quando quisermos voltar atrás no tempo, já não é possível e o seu bebé já é um homem! Mime-se e mime-o!

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