Como mulheres temos desafios específicos em relação ao nosso bem-estar e saúde. O nosso equilíbrio tanto a nível físico como mental e emocional está intimamente ligado ao ciclo natural menstrual e às mudanças hormonais que ocorrem ao longo da nossa vida. Vivemos numa sociedade que não reconhece e apoia a importância da nossa natureza cíclica e das transições naturais que são parte intrínseca do nosso desenvolvimento humano. Como consequência, temos dificuldade em confiar nas mensagens dos nossos corpos e em conectar e aceitar de um modo positivo os nossos ciclos femininos e as mudanças resultantes. Neste artigo transmito a perspetiva da medicina oriental, em particular da medicina tradicional chinesa e do shiatsu sobre a saúde da mulher, tendo como objetivo criar outras possibilidades de interpretar a experiencia de ser mulher nesta sociedade ocidental.

Ainda que a vida da mulher tenha mudado muito nos últimos 2000 anos, os ciclos naturais que regem os nossos corpos permanecem os mesmos. Em algum momento da nossa vida experimentámos (ou provavelmente experimentaremos) irregularidades menstruais, períodos dolorosos, infeções vaginais ou urinárias, sintomatologias de menopausa. Entender os nossos ciclos naturais e os sinais de desarmonia é uma ferramenta poderosa que possuímos como mulheres, para podermos fazer escolhas que beneficiem a nossa saúde, aumentem a nossa vitalidade e reduzam a probabilidade de adoecermos. 

Do ponto de vista da medicina chinesa, a nossa energia vital é também responsável pela nossa capacidade reprodutiva. É nos rins que armazenamos a reserva de energia vital, incluindo a energia necessária para a conceção. O estilo de vida moderno pode representar um desafio à conceção natural. Cada vez mais tendemos a ter o primeiro filho mais tarde, estamos envolvidas em carreiras profissionais ou trabalhos que exigem demasiado de nós a nível físico e emocional, trabalhamos em excesso, descansamos pouco e mal, descuidamos uma alimentação equilibrada e nutritiva. Todos estes são fatores desfavoráveis quando queremos engravidar (tanto para a mulher como para o casal).

Do ponto de vista da medicina oriental a nossa possibilidade de conceção depende da qualidade e quantidade da energia vital do casal, que por sua vez também influencia a saúde e vitalidade dos nossos filhos. A saúde do bebé está ligada à saúde dos pais no momento da conceção. Assim, se a energia vital dos pais é deficiente devido à idade, excesso de trabalho, alimentação inadequada, isto pode afetar tanto a conceção como o desenvolvimento do feto durante a gravidez.

Quando planeamos engravidar é importante dar atenção a como podemos fortalecer e harmonizar a nossa energia vital e saúde. Por vezes sentimos dificuldade em dar prioridade às nossas necessidades, pois estas entram em conflito com exigências profissionais ou familiares e a nossa sociedade não valoriza estas necessidades. Conflitos a nível emocional (por ex. stress, ansiedade, frustração) podem causar bloqueios energéticos nos meridianos e órgãos do corpo que se manifestam em sintomas físicos ou esgotam a nossa vitalidade, afetando tanto a possibilidade de engravidar como de manter a gravidez.

Com a gravidez surgem novos desafios, responsabilidades, incertezas e inseguranças. O nosso papel e identidade sofrem uma mudança radical, surgem também grandes mudanças hormonais. Tudo isto pode fazer-nos sentir mais vulneráveis, emocional, psicológica e fisicamente. Como mulheres, por vezes sentimo-nos pressionadas a manter o mesmo ritmo de trabalho e presença social, enquanto interiormente sentimos necessidade de descansar e estar mais em contacto com o nosso íntimo. A capacidade de aceitar as novas emoções (incluindo o medo e a frustração) e os desafios, bem como adaptar o nosso estilo de vida, alterar hábitos, dando prioridade às nossas necessidades, é crucial para experimentarmos uma gravidez saudável e harmoniosa.

O equilíbrio entre trabalho, descanso e atividade física, uma dieta apropriada, bem como lidar com o stress emocional, são essenciais para que a nossa energia vital se mantenha abundante e forte para suportar a gravidez, bem como a saúde e vitalidade futura do bebé. Falta de energia, exaustão e problemas durante a gravidez podem ser indicações de desarmonias físicas, emocionais ou no nosso estilo de vida. O medo e a ansiedade à volta do parto são um reflexo da generalizada falta de confiança nos processos naturais e na nossa sabedoria e intuição inatas. A medicalização do parto e a enfase dada ao risco distanciam-nos dos nossos corpos, tornando-nos desconfiadas deste processo fisiológico e das incertezas a ele inerentes. Fortalecer a nossa autoconfiança passa por criar uma relação com o nosso corpo e emoções e aprender a dar prioridade ao que é importante para nós próprias.

O paradigma de assistência médica durante o parto ainda está pouco centrado na experiencia e opções desejadas pela mãe e casal. Estar informadas quanto ao processo de parto e às opções que temos, ajuda-nos a sentir mais confiantes e mais assertivas em relação ao que é importante para nós.

A recuperação após o parto não recebe a devida atenção na nossa sociedade, no entanto do ponto de vista da medicina oriental, este é um período crítico para a saúde futura da mãe.  Devido à perda de sangue e energia que ocorre como resultado da gravidez e parto, nos quarenta dias que se seguem estamos mais vulneráveis. Durante estes 40 dias (denominado o “mês de ouro” na China) existe o potencial de curar certas doenças ou debilidades prévias à gravidez. Neste período é importante repor a energia vital consumida e fortificar o corpo, essencialmente através de descanso e uma boa nutrição. A perda de sangue e o esgotamento energético podem causar ansiedade, dificuldade em dormir, falta de energia e depressão.

Cuidar do nosso bem-estar e saúde significa cultivar o amor-próprio, respeitando os nossos corpos e ritmos naturais. Bem como tornar-nos conscientes e responsáveis nas nossas escolhas e em como estas podem apoiar ou bloquear o bem-estar físico e emocional. O primeiro passo é dar prioridade às nossas necessidades, aceitar que podemos melhorar e aprender através das escolhas que fazemos.

 

Este artigo foi-nos gentilmente cedido por Cristina Gondar, do blog Maternidade Consciente.