Este texto poderoso, escrito por Mariana Torres, médica interna de ginecologia e obstetrícia, foi-nos gentilmente cedido pela Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto, e é acima de tudo uma homenagem à força e à dor das mulheres quando nasce uma criança - uma ode à vida e à natureza humana. 

Logo a seguir ao cheirinho de recém-nascido, das coisas que mais gosto num Bloco de Partos é o som dos puxos.

Cada mulher tem a sua maneira de parir… Há quem o faça em silêncio. Há quem suspire. Há quem grite. Há quem ria.

Começo logo a sentir borboletas na barriga por se aproximar o momento mais mágico que acontece naquele lugar.

Mas… ao olhar em redor, o que vejo geralmente são esgares de desaprovação e incómodo pelos sons do parto. Lembro-me logo dos momentos em que, quando ainda tinha dentes de leite, tentavam ensinar-me os Mandamentos para ser uma Menina Bonita. “As Meninas Bonitas não falam alto”. Não?! Porque não?!

O grito no parto não é necessariamente um grito de sofrimento. Muitas vezes é uma exteriorização de energia corporal, uma forma de aliviar a tensão do momento e ganhar forças. É um som que vem cá de dentro e é incontrolável.

Parir é mais fácil se esquecermos os moralismos e tabus. É um momento de introspeção e de encontro consigo mesmo. Será preferível “desligarmos” o neocórtex e guiarmo-nos pelo cérebro primitivo. Sim, parir é algo animal, mamífero, belo.

Como podemos criticar o comportamento de alguém que gerou dentro de si uma vida e está com toda a sua força a espremer das suas entranhas um ser? Não é este o milagre da vida?

Fazer barulho é natural durante o trabalho de parto. Curiosamente, ao relaxar os maxilares conseguimos relaxar também os músculos da pélvis, o que facilita todo o processo. E uma maneira de relaxar os músculos do maxilar é precisamente abrir a boca e vocalizar sons graves. Forçar o silêncio é cerrar a boca, contrair os músculos do maxilar e consequentemente contrair o períneo, dificultando a descida do bebé.

“Não grites… vais assustar o resto do Bloco de Partos!” Assustar? Deviam era sentir-se inspirados!

Proibir o grito é censurar a mulher e fazê-la sentir inapropriada. É tirá-la do seu mundo interior e provocar-lhe stress, prejudicando o desenrolar do trabalho de parto com o aumento dos níveis de adrenalina.

Por isso, quando me perguntam “Gritei muito? Portei-me mal?”, apetece-me abraçar aquela Mulher e dizer “Porta-se mal quem te tenta calar! No parto ou fora dele”. Mas apenas a asseguro “Foste uma heroína, uma lutadora… e as lutas geralmente não são silenciosas. Fizeste tudo bem!”.

Como Ina May Gaskin diz: “Se uma mulher não parecer uma deusa durante o parto, então alguém não a está a tratar corretamente”. E sim, nem todas as deusas são silenciosas.

Por isso, grita, vocaliza, sussurra, ri, geme… O parto é teu.