A Vanessa Muchagata é a mãe por detrás do blog Crónicas de uma Grávida Acamada, que começou a escrever precisamente quando uma gravidez de alto risco a forçou a estar em repouso absoluto. Habituada a partilhar com o público diversos episódios da sua vida pessoal, abriu o coração e a intimidade com este texto, sobre os dois abortos que sofreu e a persistência em busca do sonho: ter um filho nos braços. Uma mensagem muito positiva de que quem espera... sempre alcança. :) 

Recebi um comentário anónimo neste post, pediram-me que escrevesse sobre “Sexo depois de um aborto”, ainda estive uns dias a pensar sobre se conseguia escrever sobre este assunto, este que considero ser um assunto menos consensual do que “Sexo depois da maternidade”, é um assunto que considero igualmente pessoal, íntimo, delicado e com alguma complexidade sentimental, não há bebé, não há amamentação, não há pontos, não há todo um novo mundo que preenche a mulher que se torna mãe, há silêncio, lágrimas, tristeza, raiva, frustração, revolta, um vazio, um sentimento de perda, senti-me diminuída, culpada, senti que falhei enquanto mulher, olhava para as mães, para as grávidas e questionava porque eu? Porque comigo? Porque?
Não sei se quem fez este pedido sabe um bocadinho da minha história, mas, infelizmente, tenho legitimidade para o escrever, antes da M. sofri dois abortos retidos, foram os maiores socos no estômago que levei na vida, lembro-me bem como foi, o que senti, o silêncio de um coração que não bate, a expectativa frustrada, o vazio, no peito, na cabeça, no ventre, entre nós os dois que olhávamos um para o outro sem saber o que dizer, os olhos dele que olhavam para mim com pena, a firmeza dele em proteger-me e engolir o seu próprio sofrimento, o abraço dele que naqueles momentos me abrigava em pleno, ainda assim sentia-me sozinha e achava que nem ele nem ninguém compreendia o que eu estava a sentir.
Da primeira vez tive medo, muito medo, o meu corpo não expelia aquele feto que teimava em continuar dentro de mim como que: não quero sair deste que é o meu lugar! o que me obrigou a ter que entrar num bloco  de partos, eu de um lado com os olhos cheios de lágrimas de medo e tristeza do outro lado uma mãe com os olhos cheios de lágrimas de alegria com um filho nos braços.
Na segunda vez, as mesmas personagens, o mesmo guião, o filme repetia-se, desta vez sabia bem ao que ia, já não tinha medo só tristeza e uma certeza momentânea: Não queria voltar a engravidar, não queria mais aquilo que me fazia mal e me estava a destruir por dentro.
O facto de ter sido submetida a duas curetagens obrigava-nos a uma abstinência sexual de 3 meses, 3 meses que eu contava religiosamente para começarmos outra vez a tentar.
Não havia medos nem receios, retomar a minha vida sexual era natural e quase necessário, eu queria mesmo engravidar e sabia que remávamos os dois na mesma direcção, nunca tive dificuldade na entrega, nunca senti que o meu corpo tivesse sido dilacerado, assumi que a natureza sabia o que fazia e deixei as coisas fluírem com naturalidade e assim foi assim das duas vezes.
Mesmo com poucas semanas de gravidez perder um bebe é devastador, tudo necessita de sarar: o corpo, o espírito, a cabeça, até o casal em si precisa de recuperar-se emocionalmente e arrumar ideias, usei sempre o tempo a meu favor para conseguir um novo começo, nunca desisti do que queria, os abortos em nada abalaram a minha vida sexual, após cada perda estive sempre pronta e preparada para engravidar outra vez.
Mas nem sempre é assim, há mulheres com medos e receios, que sentem realmente que o seu corpo foi dilacerado, torturado, flagelado, rasgado, maltratado, que não se entregam, que não se julgam à altura, e se culpam pelo que aconteceu, sentimento de impotência, que leva ao isolamento e ao silêncio, a exaustão psicológica e as perdas de sangue apoderam-se  o que poderá ser causador de não se estar preparada para retomar a vida sexual, há quem não esteja pronta a engravidar de novo vivendo com um eterno medo e receio de que tudo possa voltar a acontecer, há quem não consiga ver solução numa nova gravidez.

Para mim o truque foi nunca desistir, seguir sempre em frente e lutar por aquilo que queria – um filho – e sexo era a palavra de ordem para o conseguir ter.