Depois do enorme sucesso de Histórias Para os Avós Lerem aos Netos 1, chegam mais histórias testadas em netos de carne e osso. Estas são histórias inspiradas em episódios da vida real, em que a semelhança com a realidade de avós e netos não é pura coincidência. São histórias com birras e dentes a abanar, medo do desconhecido e do escuro, meninas que não querem tomar banho, meninos que fogem da escola e, claro, manas do meio esmigalhadas entre as irmãs. São histórias “verdes”, com monstros vegetarianos e gente que, nas mãos, em vez de dedos tem árvores  São histórias cheias de coisas por descobrir onde vivem as formigas, quantas patas têm os insectos, por que é que algumas ovelhas têm asas? Mas, acima de tudo, são histórias para a voz dos avós. Pontos de partida para tantas outras, pretexto para momentos especiais em que, por um bocadinho, os pais não podem entram.  Foi a propósito delas que a Pumpkin entrevistou a autora, Isabel Stilwell. Uma avó como poucas! :) 

«As Histórias para os Avós lerem aos Netos 2» são baseadas em episódios da vida real. Os seus netos são a sua maior inspiração, não só no processo criativo mas também na vida? 

São mesmo uma fonte constante de inspiração e de felicidade. Acho que me dão mesmo momentos de felicidade pura, momentos em que consigo abstrair-me de tudo o resto, e só por isso tinham de ter um efeito positivo na minha criatividade. Ainda há bocadinho, a Carminho entrou aqui vinda da escola e contou-me o seu dia, e, de imediato, abriu-se uma clareira de luz. Eles são os nossos olhos em mundos onde já não estamos, mas conseguem também fazer-nos viajar dentro de nós próprios. E se os filhos já não nos deixavam dormir em serviço – muito menos permitiam que a vaidade nos subisse à cabeça –, os netos com a sua franqueza e autenticidade continuam essa tarefa. Como costumo dizer, são mesmo o maior antídoto para a senilidade.

É muito engraçada a premissa de que este é um livro no qual «os pais não podem entrar». A voz dos avós conta palavras diferentes?

Venho em defesa de espaços e tempos que pertençam só aos avós e aos netos, em que podem construir a sua história, memórias comuns, fazer as coisas de uma outra maneira. Em que os avós deixem a sua voz dentro dos netos, criando um lugar mental onde eles podem sempre regressar, mesmo quando os avós já cá não estiverem. Quero que os avós se sintam com direito a esse tempo, o cultivem e valorizem. A ideia não é estimular a concorrência, até porque os avós que concorrem com os pais (há até alguns que se iludem com a ideia de que são mais importantes do que eles) são basicamente maus avós.

Este é já o segundo volume das «Histórias para os avós lerem aos netos». Pensa escrever mais e tornar assim este título uma série? São infinitas as histórias que avós e netos inventam juntos?

Tem toda a razão, são infinitas as histórias. Gostava muito que se tornasse numa série, e que as crianças que ouviram as primeiras pudessem ir crescendo com as nossas histórias. Ponto de partida, como digo sempre, para que os avós e os netos que as leem, façam eles próprios o mesmo.

Qual é a sua história favorita deste livro?

Pergunta difícil, porque a todas associo momentos que foram fantásticos. Adoro a da Constança e as botas de borracha, porque a Constança de carne e osso, aos quatro anos é mesmo assim, cheia de vida e de vontade de testar coisas diferentes. Gosto muito das histórias da Ratinha cor-de-rosa pela mesma razão: a Carmo, a Madalena e eu sabemos que ela existe, e a prova é que roeu um dos meus melhores casacos cor-de-rosa. A do Monstro Vegetariano aconteceu mesmo, e foi a resposta que uma das gémeas deu à que tinha tido o pesadelo. Podia continuar por aqui adiante, cada história tem uma história. Depois há as do Francisco, o meu filho mais velho, que me espanta sempre com as suas histórias, porque estão cheias de magia e surpresa. Sobretudo os rapazes que as ouvem, identificam-se sempre muito mais com as dele do que com as minhas. A das aventuras na Serra dos Candeeiros é mesmo deliciosa —  criaturas de um olho só, elefantes que contam anedotas, dedos das mãos que são como árvores e perdem as folhas no inverno...

Se pudesse dar um único conselho, como avó, a quem foi agora mãe pela primeira vez, qual seria? Existe alguma forma de contornar o conflito geracional que, de alguma forma, se sente sempre que um neto nasce e limites precisam de ser estabelecidos?

Sabe assusta-me quando vejo as mães, nos blogues que às vezes leio, tão zangadas com as sogras... há uns tempos li o post de uma que se queixava de que a sogra pegava no bebé e lhe dizia qualquer coisa como «se não fosse eu tu passavas fome» ou uma ou outra frase mortal do mesmo género. As mães que comentavam o post escreviam também barbaridades do género «põe-lhe já limites, ou nunca mais te livras dela», «não a deixes visitar o bebé, marca dias e horas», num discurso que só pode levar a raiva mútua. É claro que há sogras e mães que atropelam as noras, genros, filhos e quem se puser à frente, possuídas pela ilusão de que são mães daquele bebé, mas há outras que se limitam a, de forma desajeitada, é certo, procurar a confirmação de que vão ser importantes na vida daquele bebé. Se as mães que ouvem estes comentários não estivessem inseguras, cansadas e com as hormonas aos saltos conseguiriam perceber que a melhor maneira de reagir seria com sentido de humor, dizendo-lhe qualquer coisa como: «Pois é… sem a avó tu não eras nada, pois não, bebé?». E, entretanto, aproveite para lhe deixar a criança durante uma hora, enquanto vai dormir uma sesta, ou ver umas montras. Diria às mães: «Sosseguem, o vosso filho nunca vai gostar tanto de outra pessoa como gosta da mãe», por isso... sejam generosas. O seu filho só vai ganhar em ter uma família alargada que o conhece e ama, e nos momentos de maior irritação pense... que bem lhe vai saber ir ao cinema, com a certeza de que ele fica num lugar a que está habituado e com pessoas que conhece.